17 de setembro de 2018

PROVOCA-ME!

PROVOCA-ME como só tu sabes
olhos negros, brilhantes
lábios carnudos, vibrantes
rosto todo ele paixão
Excita-me como só tu fazes
seios espetados, picantes
pernas cruzadas, exuberantes
corpo todo ele tesão.
Enlouquece-me como só tu consegues
sorriso cheio de promessas
e eu fico às avessas
sem chão!


(Eu e os meus fantasmas, Mário Jorge Santos, 2005)
QUANDO TE INVENTEI
eras uma teimosia em forma de resistência;
uma força onde se sentia segurança,
um rosto onde se lia determinação
e um olhar banhado de esperança
que te subia do coração.
Por seres tudo aquilo que eu não era
um ânimo que não eu (tu nem sabias de mim)
de dia, seguia-te escondido na minha própria sombra
e de noite, sonhava-te no escuro da solidão do ser só.
Se soubesses de mim, ficaria teu escravo
e desprezar-me-ias, por saberes, demasiado tarde
do meu amor egoísta, interesseiro, cobarde.
Um dia desapareceste (ou fui eu que te esqueci...)
Porque foi que morri?
(Eu e os meus fantasmas, Mário Jorge Santos, 1980)

16 de abril de 2018

NO TEMPO EM QUE TUDO ANDAVA MAIS DEVAGAR

No tempo em que tudo andava mais devagar eram os fins de tarde demorados e calmos, debaixo do alpendre, com a planície quieta e imensa ali ao alcance da mão que me deixava no sonho de que um dia voltaria a ver-te e iria ficar contigo pelo tempo que ainda nos restasse viver.
E aparecias-me na mansidão de uma brisa morna, ficávamos de mãos dadas, dedos entrelaçados como nos cestos em que o vime lhes dá segurança, a tua cabeça no meu ombro e os nossos olhos na direcção de um sol incendiado a cair ao longe por detrás do grupo de oliveiras.
A noite chegava devagar até que se fechava, pejada de pontos brilhantes, uma lua madrugada dentro a entrar pelo quarto e a encher de reflexos de prata aquele nosso momento de amor.

16 de março de 2018

TALVEZ AMANHÃ O TEMPO MELHORE


Os meus marços antigos tinham primaveras
com dias amenos de cores brilhantes
e noites de luas azuis em céus cintilantes 

Não são como os de agora
com mais dor do que amor
e em que a saudade demora.

ÀS VEZES



ÀS VEZES DISFARÇO-ME DE MIM 
para poder ser eu.

E fico aguardando o meu passado 
para que me explique como cheguei até aqui
com esta estranha esperança de ter ainda tempo 
de refazer o meu futuro.

12 de março de 2018

ENTRE DUAS TEMPESTADES

ENTRE DUAS TEMPESTADES, vivemos um ou dois dias,
de sóis tímidos a espreitarem por entre nuvens cinzentas
e ficamos felizes com estas pequenas bonanças intermédias!
Março é tempo de primaveras onde a vida se dá esperanças
com céus azuis, campos de corolas multicolores,
e dos voos inquietos da passarada, tempo de odores
e do renascer de frutos nas tardes de brisas suaves e mornas
a antecipar noites tardias e calmas, de cintilações magníficas.

Não é tempo para estes desmandos da natureza
nem para andarmos como cegos a apalpar, a tristeza.

6 de março de 2018

COM PÉS DE VELUDO

Com pés de veludoandou pela madrugada, uma mulher
a inventar flores na paisagem
a esvoaçar suave como aragem
no chão desnudo.
Esta mania que eu tenho de meter
mulheres em tudo.

(A pensar em José Gomes Ferreira e no dia da Mulher)

22 de fevereiro de 2018

CENAS VIOLENTAMENTE CASEIRAS


ERAM SETE DA MANHÃ. Dois carros com as luzes azuis a crepitar nos tejadilhos e sirenes mudas atravessaram-se na rua à porta do quarenta e um, o prédio em frente aquele que habito. Três agentes entraram, passo apressado e um quarto ficou na porta. Alguns vizinhos vêm às janelas. A dona Emília, bisbilhoteira de profissão que habita o rés-do-chão esquerdo já está à janela para a reportagem que sairá em primeira mão na leitaria Mimosa do Largo enquanto toma a meia de leite e mastiga a meia torrada sem côdea. 

Uma luz meio azulada de um fim de madrugada já amanhecer de Verão quente, subia das bandas do rio, rua acima.
Ela tinha tentado espetar-lhe uma faca no peito. Ele defendeu -se, atacando. Um estalo. Um empurrão e foi quando ela caiu para cima do pechiché e o espelho se partiu. Foi quando ela gritou. Mais um estalo e ela atirou-lhe com o banco de quarto.

A vizinhança tinha outra opinião. Aquilo era sexo duro demais. Ciúmes a mais. Às vezes chegavam tarde demais. Lá vinham dos lados das Janelas Verdes - dona Emília ouvia-os e via-os atrás das cortinas do quarto do rés-do-chão - embriagados e cheios de nuvens na cabeça - não seu se me entendem, dizia ela - afinal talvez tivesse sido ele a empunhar a faca e ela na aflição a tentar fugir. Ela manicura. Ele, ninguém sabia bem.

Desceram. Os dois. cada um acompanhado por um agente a segurá-lo pelo braço. Havia sangue no rosto dela. A cabeleira loura desalinhada e um chinelo no pé direito, um rasgão na camisa de dormir e parte da coxa à mostra. Ele de tronco nu com uns calções a escorregarem pela cintura. Ainda se ouviu uma pergunta. Era ela, antes de entrar para o carro da polícia.
"Oi amor, levas o iphone?"

3 de fevereiro de 2018

O SORRISO, SEI QUE FOI

Mais que o olhar,
embora o olhar também
Mas foi o sorriso cheio
de luz penetrante
como um lago vibrante
que apeteceu mergulhar nele
despido de todo o pudor.

AH! Sorriso encantador
tanto encantamento teve
que nada mais deteve
este encantado amor!

1 de fevereiro de 2018

COM QUANTOS SENTIDOS SE SENTE O SENTIR?

Porque sinto o brilho dos teus olhos que bate nos meus,
Porque sinto o som da tua voz numa doce melodia
Porque sinto o gosto dos teus lábios na quentura do beijo
Porque sinto o cheiro do teu corpo num desejo.
Porque as minhas mãos percorrem-te numa sinfonia
E sinto!
E mesmo que não os tivesse a todos, os cinco,
Olhar-te-ia sem te ver e sentiria,
Ouviria a tua voz ausente e sentiria
Sentiria o sabor dos teus lábios sem ter de os beijar
Sentiria do teu corpo a nuvem de perfume
Não podendo tocar-te, tocar-te-ia no sonho imaginado.
E sentiria!

Porque mesmo que não tivesse sentidos,
amar-te-ia com os sentidos da alma,
como te amo, tendo-os!