16 de abril de 2018

NO TEMPO EM QUE TUDO ANDAVA MAIS DEVAGAR

No tempo em que tudo andava mais devagar eram os fins de tarde demorados e calmos, debaixo do alpendre, com a planície quieta e imensa ali ao alcance da mão que me deixava no sonho de que um dia voltaria a ver-te e iria ficar contigo pelo tempo que ainda nos restasse viver.
E aparecias-me na mansidão de uma brisa morna, ficávamos de mãos dadas, dedos entrelaçados como nos cestos em que o vime lhes dá segurança, a tua cabeça no meu ombro e os nossos olhos na direcção de um sol incendiado a cair ao longe por detrás do grupo de oliveiras.
A noite chegava devagar até que se fechava, pejada de pontos brilhantes, uma lua madrugada dentro a entrar pelo quarto e a encher de reflexos de prata aquele nosso momento de amor.

16 de março de 2018

TALVEZ AMANHÃ O TEMPO MELHORE


Os meus marços antigos tinham primaveras
com dias amenos de cores brilhantes
e noites de luas azuis em céus cintilantes 

Não são como os de agora
com mais dor do que amor
e em que a saudade demora.

ÀS VEZES



ÀS VEZES DISFARÇO-ME DE MIM 
para poder ser eu.

E fico aguardando o meu passado 
para que me explique como cheguei até aqui
com esta estranha esperança de ter ainda tempo 
de refazer o meu futuro.

12 de março de 2018

ENTRE DUAS TEMPESTADES

ENTRE DUAS TEMPESTADES, vivemos um ou dois dias,
de sóis tímidos a espreitarem por entre nuvens cinzentas
e ficamos felizes com estas pequenas bonanças intermédias!
Março é tempo de primaveras onde a vida se dá esperanças
com céus azuis, campos de corolas multicolores,
e dos voos inquietos da passarada, tempo de odores
e do renascer de frutos nas tardes de brisas suaves e mornas
a antecipar noites tardias e calmas, de cintilações magníficas.

Não é tempo para estes desmandos da natureza
nem para andarmos como cegos a apalpar, a tristeza.

6 de março de 2018

COM PÉS DE VELUDO

Com pés de veludoandou pela madrugada, uma mulher
a inventar flores na paisagem
a esvoaçar suave como aragem
no chão desnudo.
Esta mania que eu tenho de meter
mulheres em tudo.

(A pensar em José Gomes Ferreira e no dia da Mulher)

22 de fevereiro de 2018

CENAS VIOLENTAMENTE CASEIRAS


ERAM SETE DA MANHÃ. Dois carros com as luzes azuis a crepitar nos tejadilhos e sirenes mudas atravessaram-se na rua à porta do quarenta e um, o prédio em frente aquele que habito. Três agentes entraram, passo apressado e um quarto ficou na porta. Alguns vizinhos vêm às janelas. A dona Emília, bisbilhoteira de profissão que habita o rés-do-chão esquerdo já está à janela para a reportagem que sairá em primeira mão na leitaria Mimosa do Largo enquanto toma a meia de leite e mastiga a meia torrada sem côdea. 

Uma luz meio azulada de um fim de madrugada já amanhecer de Verão quente, subia das bandas do rio, rua acima.
Ela tinha tentado espetar-lhe uma faca no peito. Ele defendeu -se, atacando. Um estalo. Um empurrão e foi quando ela caiu para cima do pechiché e o espelho se partiu. Foi quando ela gritou. Mais um estalo e ela atirou-lhe com o banco de quarto.

A vizinhança tinha outra opinião. Aquilo era sexo duro demais. Ciúmes a mais. Às vezes chegavam tarde demais. Lá vinham dos lados das Janelas Verdes - dona Emília ouvia-os e via-os atrás das cortinas do quarto do rés-do-chão - embriagados e cheios de nuvens na cabeça - não seu se me entendem, dizia ela - afinal talvez tivesse sido ele a empunhar a faca e ela na aflição a tentar fugir. Ela manicura. Ele, ninguém sabia bem.

Desceram. Os dois. cada um acompanhado por um agente a segurá-lo pelo braço. Havia sangue no rosto dela. A cabeleira loura desalinhada e um chinelo no pé direito, um rasgão na camisa de dormir e parte da coxa à mostra. Ele de tronco nu com uns calções a escorregarem pela cintura. Ainda se ouviu uma pergunta. Era ela, antes de entrar para o carro da polícia.
"Oi amor, levas o iphone?"

3 de fevereiro de 2018

O SORRISO, SEI QUE FOI

Mais que o olhar,
embora o olhar também
Mas foi o sorriso cheio
de luz penetrante
como um lago vibrante
que apeteceu mergulhar nele
despido de todo o pudor.

AH! Sorriso encantador
tanto encantamento teve
que nada mais deteve
este encantado amor!

1 de fevereiro de 2018

COM QUANTOS SENTIDOS SE SENTE O SENTIR?

Porque sinto o brilho dos teus olhos que bate nos meus,
Porque sinto o som da tua voz numa doce melodia
Porque sinto o gosto dos teus lábios na quentura do beijo
Porque sinto o cheiro do teu corpo num desejo.
Porque as minhas mãos percorrem-te numa sinfonia
E sinto!
E mesmo que não os tivesse a todos, os cinco,
Olhar-te-ia sem te ver e sentiria,
Ouviria a tua voz ausente e sentiria
Sentiria o sabor dos teus lábios sem ter de os beijar
Sentiria do teu corpo a nuvem de perfume
Não podendo tocar-te, tocar-te-ia no sonho imaginado.
E sentiria!

Porque mesmo que não tivesse sentidos,
amar-te-ia com os sentidos da alma,
como te amo, tendo-os!


25 de janeiro de 2018

APETECIA-ME ABRAÇAR-TE



Abraço é um laço de braço
um beijo sem lábios, 
uma carícia sem mão
uma sensação de segurança
uma certeza de protecção
um conforto em tenaz de aço
um aperto que alivia
quanto mais apertado for
uma lembrança com emoção
um compasso do coração.
que não deixa espaço
que não tem cansaço
nem descanso.
antes vale por ser manso
e ser amizade, amor, paixão.

Apetecia-me abraçar-te e ficar...

5 de janeiro de 2018

ÀS VEZES, QUANDO A NOITE JÁ DURA

ÀS VEZES, QUANDO A NOITE JÁ DURA, deixo-me levitar e ponho-me a pairar pela sala, sem que ninguém note, numa espécie de vácuo imaginado que me sustenta o sonho. Na verdade, continuo sentado à mesa e parcialmente tapado pelo monitor do 'pc' a fingir que escrevo, a fingir que estou.

UM DIA ESCREVEREI A HISTÓRIA DO QUE NUNCA FOI... 
Serei então como um mentiroso compulsivo que construiu o mundo do que gostaria que fosse, o incontornável desejo de que a sua mentira seja a verdade capaz de enganar!


PORQUE TUDO O QUE FAZEMOS NA VIDA é uma espécie de cópia imperfeita do que gostaríamos que fosse. Como a perfeição só existe internamente, somos apenas os arquitectos imperfeitos dos projectos que criamos no nosso íntimo e que apenas nós dizemos perfeitos!

DEUS SÓ EXISTE NA CABEÇA DO HOMEM - só de alguns homens - e deve ser justamente por isso que é a invenção ao mesmo tempo, mais sensível e mais contraditória. E, porque não conseguiram materializá-la, assim ficou a ideia que cada um tem da sua natureza, da sua vontade e das suas manifestações tão infinitamente diversas.

SOU UM SIMPLES NÃO CRENTE.
Gosto do silêncio imóvel das catedrais vazias. 
De respirar a paz que existe no silêncio imóvel das catedrais vazias porque me ampara nos meus cansaços, fortalece-me nas minhas fraquezas, ajuda-me nas minhas hesitações, realiza-me nos meus devaneios. afaga-me nas frustrações e é o eco dos meus pensamentos e o ânimo para prosseguir. No silêncio imóvel das catedrais vazias. não serei descrente. Sou um simples não crente. que crê de maneira diferente.
EIS-ME DE REGRESSO, silencioso e discreto, ao meu lugar. Escassos minutos de um voo translúcido, intervalo necessário para descansar o cansaço de mais um dia e reganhar à noite a harmonia do tempo que importa.

Quinta do Sobral, 5 de Janeiro de 2018
ANO NOV
O (OUTRA VEZ)