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É do destino de quem ama ouvir um violino, até na lama. (José Gomes Ferreira)

17 de fevereiro de 2017

ÀS VEZES HÁ LUZES NO CAIS


Da janela do meu mundo, ai de mim, que desespero
sem companhia de estrelas, de lua prateada
sem formas de marfim, sem aquele brilho infinito
fico sem sonho para ver, sem luz para sonhar.
Tacteio com os olhos doridos, num esforço de cego,
um esboço de brilho, uma forma de sonho, iluminado..
À procura de um porto seguro, sonho mais, mais e mais.
E, às vezes, há luzes no cais!

UM SOL SEMPRE À JANELA

NÃO IMPORTA QUAL SEJA A ESTAÇÃO
não importa como acorda o coração
um novo dia é sempre dia de agradecer
Por isso:
se decreta que a partir de hoje,
só vale a vida, em todos os acordares,
mesmo nos mais cansados,
mesmo nos mais penosos,
só vale o sorriso, em todos os olhares,
mesmo nos mais fatigados
mesmo nos mais idosos
só vale a leveza, em todos os andares,
mesmo nos mais pesados,
mesmo nos mais vistosos. .
só vale a ternura, em todos os corações
só vale a paz, em todas as orações.
 só haverá girassóis em todas as janelas,
que devem ficar abertas, de par em par,
para que o homem jamais esqueça
que o Sol é vida e o que importa é amar!

15 de fevereiro de 2017

NOITE DE NAMORADOS

NÃO SEI ONDE ESTAMOS o que pouco importa
porque a noite está a chegar com promessas de amor. 
Há nuvens de luz a nascer por detrás do infinito,
um brilho de estrela que mergulha no horizonte
claridade de sombras que deslizam pelo monte
e uma estrada líquida que reflecte o céu.
A ilha abriga-nos sentimentos; solta-nos intensidades
no crepitar das chamas as promessas de amor eterno.
Olhamos o silêncio das cores, à nossa volta.
Para o meu coração, basta o teu peito.
Para a tua liberdade, as minhas asas.


14 de fevereiro de 2017

DESERTO SEM SEDE


Marcado na face por sulcos de água de sal
não pode ser deserto, antes praia ou pantanal
este imenso areal coberto por um céu quase divinal
até onde o olhar se esforça, impreciso,
até onde tecto e chão se tocam, num traço indeciso.

13 de fevereiro de 2017

SONHO QUADRICULADO

Hoje foi a claridade de um Sol desmaiado por entre uma clarabóia de nuvens, que me acordou. 
E, acordei sem conseguir recordar aquele que (julgo eu) terá sido o último sonho 
que o meu subconsciente quis sobrepor ao real do consciente 
quando este, sem vontade de reter labirintos, deixou a informação perdida. 
Talvez uma noite destas, mascarado de novo sonho, regresse para ficar.
Labirinto nunca será algo imaginado para a gente se perder 
mas um desafio onde procuramos encontrar a saída de uma dificuldade 
ou um despertar da vontade e da perspicácia para essa superação.
Tantos sonhos estranhos que temos não são mais do que os casos e acasos da nossa vida 
que quisemos fechar no lugar mais profundo do labirinto do nosso cérebro 
mas, que uma certa noite, reaparecem disfarçados de absurdo 
que nem vemos a saída tão matematicamente certa 
como uma conta que nem precisa de prova dos nove ao lado. 
São sonhos quadriculados...

10 de fevereiro de 2017

DEFINITIVO


HÁ PEDAÇOS DE ALGODÃO 
soprados por um vento leve 
num tecto de azul imenso e intenso, 
cobrindo dunas alinhadas num sem fim,
tão definitivo de tão belo,
Tudo à nossa volta será um espanto 
se não nos julgarmos donos do que não temos.


COSTA DOS ESQUELETOS

ESTOU NO CIMO DO SONHO, na beira da escarpa, 
imensa duna de amarelada areia pedregosa 
que parece pronta a esfarelar-se sobre um mar 
que dança lá muito em baixo, murmúrio de águas temerosas 
sob um tecto plúmbio, num prenúncio de tempestade. 
Levanto a cabeça quando oiço um bater de asas
de uma formação de gaivotas no infinito à procura de abrigo.
E sinto-me, por momentos, menos só!
Até que as aves passem, num voo libertário que me transcende.

25 de janeiro de 2017

JÁ PASSA DO MEIO DIA...

Chegou à porta do quarto e bateu com os nós dos dedos na porta quase totalmente fechada. Nada! Voltou a bater, agora acompanhando o toque com o nome dele a saltar receoso dos seus lábios.
"São horas, filho! Olha que já passa do meio dia!"
Do quarto ainda envolto numa penumbra que o dia tinha atacado e ajudado a clarear ligeiramente, saiu um resmungo, seria mais um grunhido de alguém que não está disposto a ser importunado.
Não obstante, ela insistiu.
"São horas, filho! Olha que já passa do meio dia!"
Encostou o ouvido à porta e julgou identificar o ruído dos lençóis quando alguém se revolve e se revolta porque acha que o dia tem ainda muito tempo para ser dia.
"Ó mãe, caramba! Eu não te pedi para me acordares, pois não?"
A mãe hesitou a ensaiar uma última tentativa mas considerou que talvez fosse melhor não insistir, até porque de dentro do quarto ouviu a voz a engrossar.
"Deixem-me em paz! É sempre a mesma coisa. Eu quando quiser eu levanto-me.....percebes ou não?"
Ela deu meia volta e enquanto seguia pelo corredor na direcção da cozinha onde o almoço fumegava, a castigar-se intimamente por não ter tido a força suficiente e as palavras pareciam sair da sua cabeça, num murmúrio.
"São horas, filho! Olha que já passa do meio dia"
A geração 'NEM NEM formada por centenas de jovens que nem estudam nem trabalham e que, um dia, ainda ouviremos culpar pais e avós por não os terem tirado da cama, porque já passava do meio dia,.....

24 de janeiro de 2017

ESPERA MAIS UM POUCO....


ACORDAVA SEMPRE MUITO CEDO Demasiado cedo.
Era normal a casa ainda dormir num silêncio profundo
apesar dos raios de Sol empurrarem as portadas da janela.
Ficava, então muito quieta, naquela apatia de enganar o dia
sem vontade de sair do lençol morno enrolado ao corpo
sem vontade de tirar a cabeça da almofada dos sonhos.

Todas as noites, antes de adormecer, ia amontoando dias
um passado feito mais de incertezas e de muito poucas alegrias
e então questionava-se sobre a moral e a justiça da vida. 
Enquanto que para uns, a felicidade parecia estar à porta
para outros, para ela também, um caminho tortuoso e difícil, 
sem abrigos nem descansos desgastava-lhe a vontade de ser.

Talvez, por isso, o sono fosse encurtado num sobressalto
muitas vezes assaltado por um pesadelo cruel.
Certamente, por isso, ela desejava esperar mais um pouco
muito quieta, escutando o silêncio sombrio da casa
esquivando-se aos raios de Sol que anunciavam o dia,
sem vontade de sair do lençol morno enrolado ao corpo
sem vontade de tirar a cabeça da almofada dos sonhos.

E ficava acordada! Fechava os olhos e ficava acordada, 
fingindo dormir, só para enganar o seu inconsciente,
para poder ser ela a comandar um sonho 
onde coubesse um futuro com a felicidade sempre à porta!


23 de janeiro de 2017

O MENINO QUE NASCEU CEGO

O seu mundo particular tinha-o construído, momento a momento,
sempre que os outros órgãos sãos lhe permitiam associar 
todas as sensações da sua retina branca.
Uma voz conhecida, outra desconhecida, a música que gostava de ouvir,
o canário que cantava tanto na gaiola da sala, 
um simples ruído que se habituara a sentir,
sons tão diferentes que relacionava com objecto ou acção. 
Quando os seus dedos tacteavam corpos e rostos, 
num tremular de ansiosa adivinhação 
ou abraçava objectos para lhes descobrir as formas e as texturas.
Mas também tudo o que lhe descreviam e 
armazenava num imaginário de cores e formas.
A praia de areia dourada sob o intensamente amarelo do Sol, 
o céu azul a reflectir ondas brancas de espuma, nuvens revoltas, 
as árvores de copas verdes e a relva macia a atapetar o chão
e, nas noites estreladas num mar de cintilações 
iluminadas pelo néon da Lua com os desenhos das sombras 
Todas as coisas que se esforçava por captar 
num esforço que os seus olhos nunca poderiam ser. 

Num fim de tarde, em que dava o seu habitual passeio com o pai, 
pela muralha que ladeava o porto de pesca
e ia descrevendo tudo o que não podia ver, 
o pai nunca deixava de ficar fascinado 
ao confrontar o filho com o seu mundo interior, imaginado. 
Foi então que, a dada altura, ao sentir a amena brisa 
que àquela hora sempre se levantava, 
ele estacou, de repente e perguntou:
- Pai, diz-me. Que cor tem este vento?