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É do destino de quem ama ouvir um violino, até na lama. (José Gomes Ferreira)

14 de novembro de 2017

QUANDO FOI QUE ADORMECI?

Não. Não é insónia. 
Insónia é quando queremos dormir e não conseguimos.
Aqui, sou eu mesmo que não durmo porque não quero..
Finjo que durmo mas não durmo.
Deito-me, simplesmente. Fecho os olhos. Escuto o silêncio.
Depois penso em algo que gostava que acontecesse
ou simplesmente uma vida inventada,
no escuro interior da minha cabeça, da minha imaginação
e por aí fora, como num filme, sem imagem nem som
uma história que começo a contar a mim mesmo.
uma história que sou eu que faço e me agrada
apesar de ter de fingir que não sei o fim
para não lhe tirar aquele interesse que a vida tem.
porque é uma história de vida.
A minha! Aliás, uma história de vida que não é minha
embora imaginada por mim para que pudesse ser.
Projectos, planos, momentos colados uns aos outros
É uma boa altura. Está tudo tão sossegado, tão quieto.
que sou capaz de ouvir a imaginação a trabalhar
....e depois adormeço...tranquilamente, sem imaginação.
Nunca sei em que preciso momento em que isso acontece
mas sei que acontece porque depois, acordo.
E embora nem pense já no que pensei antes de adormecer
sinto-me feliz, sobretudo, por acordar para a vida real
onde também há vidas inventadas...

6 de novembro de 2017

DEPRESSÕES

Uma estranha prostração, uma imobilidade cansada
permaneço deitada, sem reacção a nada!
Neste refúgio de olhos abertos sem nada ver
nesta vontade de querer não querer.
A tarde, numa lenta agonia,
apenas aguarda a noite, o luto do dia.
Apetece-me estar, ficar nesta estranha prostração,
nesta imobilidade cansada, sem reacção.
A realidade ficou tão diferente, desde que partiste...


4 de novembro de 2017

SERIA BEM MAIS FÁCIL

Se não fosse tão gago seria tão fácil dizer-te que passo as noites a sonhar contigo, que te amo que nem um louco se é que amar como um louco seja aconselhável, como gostaria tanto namorar contigo, sei lá, talvez até de me casar contigo. Todas as manhãs apanho o autocarro das oito e dez e duas paragens depois quando tu entras já eu tenho o coração a bater como deve bater um coração depois de correr uma prova de obstáculos e tenho as palavras todas enfileiradas na cabeça

(gosto tanto de ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

na minha cabeça as palavras não gaguejam e eu digo tudo sem interregnos que pena tu não poderes ouvir o que eu penso e lá estás tu na tua paragem duas paragens depois da minha, à espera do autocarro das oito e vinte que é o mesmo que o meu que é o das oito e dez, duas paragens antes e entras, olhas para mim, tenho a certeza que é para mim e eu que já tenho o coração com dez minutos de uma ansiosa corrida de obstáculos e vamos os dois e mais não sei quantos passageiros pendurados nas argolas, hora de ponta, autocarro à pinha mas não interessa nada porque só te vejo a ti, linda, maravilhosa, eu com as palavras na cabeça tão certinhas para te dizer

(gosto de tanto ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

vinte minutos pendurados nas argolas em equilíbrios de bêbedos, nunca estive bêbedo porque sendo gago e bêbedo deve ser muito mau, e chega a nossa paragem, saímos empurrando outros que nos empurram, esgueiramo-nos por entre os que vão continuar pendurados nas argolas e olhas para mim, tenho a certeza que é para mim, mas eu hesito (e se não?!) e gaguejo um sorriso mas já vais em passo apressado em direcção ao largo, à loja de ferragens onde és a 'menina da caixa' e vou no sentido oposto, ainda olho para ver se te vejo mas já não estás ali e sigo em direcção ao ministério onde passo o dia a alinhar os números, a tratar dados, a produzir estatísticas de tudo sobre tudo e a pensar como seria tão bom se tu pudesses ouvir o que eu penso

(gosto de tanto ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

e chega o fim da tarde, do dia de trabalho, como sais sempre depois de mim, vou ao café tomo uma bica, compro o jornal, espreito à porta da pastelaria, vejo-te ao fim da rua, a vir do largo, da loja de ferragens e chega o autocarro, o mesmo que o meu porque eu espero pelo teu, é hora de ponta mas eu não me importo porque assim estou mais tempo contigo, meia hora de caminho, eu com o jornal dobrado debaixo do braço, também não gaguejo a ler mas só quando leio só para mim, regressamos às argolas e eu achar que tu me sorris e eu não sei se hei-de sorrir, não, não afinal é impressão minha, mas olhaste de certeza que olhaste e sais na tua paragem e eu fico mais duas paragens, com as palavras a saltarem-me da cabeça, na borda dos lábios em fileira sem gaguejar

(gosto de tanto de ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

e chego ao meu minúsculo 'tê um' onde vivo só com a minha gaguez, com um quarto e uma sala com uma 'kitchenette' que mal dá para estrelar um ovo mas que parece tão grande, enorme e vazio, desaconchegado e imagino-me contigo ali junto à janela, a vermos ao longe as luzes da ponte e dos carros na ponte e tu a encheres de alegria o meu 'Têum', a aconchegares o meu amor com os teus olhos doces, a dizeres-me aquilo que eu não consigo dizer-te sem gaguejar

(gosto tanto de ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

há uns meses atrás, ao almoço, o Osório, almoço sempre com o Osório porque é meu amigo e tem paciência para aturar a minha gaguez, disse-me que treinasse dizer tudo a cantar porque era mais fácil e que respirasse fundo, descontraísse e eu tenho treinado mas depois lembro-me que és capaz de pensar que estou louco por dizer-te que gosto de ti, a cantar e perguntar se queres namorar comigo, a cantar, e pedir-te em casamento, a cantar e fico logo nervoso só de pensar, como me posso descontrair se, quando te vir amanhã no autocarro e te disser a cantar

(gosto tanto de ti, queres namorar comigo? e se casássemos já!)

se eu não fosse tão gago, seria tão mais fácil



... 

3 de novembro de 2017

EM NOVEMBRO,


EM NOVEMBRO, 
As noites são mais longas do que a claridade
Deito-me e sonho contigo, engano meu
se, apenas, queria ser um sonho teu.
tão leve como a luz sem peso nem forma.
tão suave como o ar que em tudo se torna
o amor por ti, é aquele sonho meu
que brilha e respira, além da eternidade.

1 de novembro de 2017

QUANDO A TERRA COMEÇAR A TREMER

CHAMAVA-ME ISMAEL PORTAL era sapateiro de profissão com loja na rua dos Mercadores, quando se ia para a Ribeira das Naus, mais ou menos a meio caminho. Tinha dois aprendizes que faziam as entregas dos arranjos e também encomendas de sapatos e botas para a Corte de El Rei D. José. 
Vivia no andar por cima da loja, com a minha esposa Beatriz, a mãe das minhas filhas amadas Isabel, a mais velha e Mafalda. O meu filho querido Afonso, partira havia seis meses na nau Glória, rumo a terras de Vera Cruz e há dois dias enviara carta dizendo que estava de boa saúde e que partiria para o Sertão em caravana em demanda de ouro e pedras preciosas que, segundo se dizia, eram de abundância naquelas paragens.
Éramos felizes e estávamos num bom momento das nossas vidas..
Em breve seria o casamento de Isabel. com Rodrigo, filho de ourives, que servia na Guarda Real tendo conhecido Isabel que era aia da princesa Maria.

AMANHÃ, A TERRA IRÁ TREMER, pelas primeira horas da manhã quando a maior parte da população estiver nas igrejas e cemitérios já que é feriado e dia de Todos os Santos. Primeiro um ronco fará estremecer os nossos corações, brotando debaixo de nós, debaixo do chão, de todo o chão, de todo o lado. 
Depois, tudo começará a abanar; casas que desabarão e logo se transformarão em montes de pedras e madeiros com os moradores nas ruas num terror enquanto o chão se abrirá em fendas até ao inferno e as calçadas se enrolarão como se de tapetes se tratasse. Para os lados da Sé rebentará incêndio que se propagará. e serão mais casas que arderão como archotes pela encosta até ao castelo.
Os céus fechar-se-ão num breu aterrador e por baixo dos nosso pés, o chão depois de uns momentos de quietude voltará a tremer e a provocar mais ruínas, mais incêndios; pessoas e animais que desaparecerão nas brechas abertas.
O pânico, levará a multidão para o Terreiro do Paço, porque se trata de local arejado e amplo e haverá soldados da guarda real que tentarão por alguma ordem e organizar um socorro a vítimas.
Pequenos grupos de homens e mulheres tentarão desesperadamente com baldes, panelas e outros que puderam encontrar apagar alguns incêndios enquanto muitos outros andarão a correr de um lado para o outro sem préstimo mas apenas movidos pelo terror. Mas os incêndios por toda a cidade não pararão de aumentar. Milhares de velas colocadas para iluminar santos e altares por ser dia de Todos os Santos.
É então que um grito uníssono ecoará no terreiro e logo centenas num terror desmedido se atropelarão numa corrida para as ruas que sobem para o castelo e para o bairro alto por cima das próprias ruínas e dos desgraçados que caíam no pânico da fuga. enquanto outros num pavor extremo encontrarão a morte já ali junto ao rio. 
Uma onda enorme tapando a visão da outra margem e do céu, avançará pelo terreiro vinda do lado da ribeira das naus, trazendo barcos grandes e pequenos, pedras e os restos de árvores e destroços sem nome e tudo arrasará, mais alta que as casas, tudo abafará no fragor da pancada.

A ONDA FARÁ AINDA MAIS MORTE E HORROR e depois de uns momentos, outra se seguirá ainda maior que tudo cobrirá; o rio subirá das margens e fará das ruas baixas até à grande rotunda, nas portas norte da cidade, um mar de destroços e correntes de água de uma força desmedida que assim enlamearão toda a cidade tornando impossível a vida..
Beatriz, a minha mulher irá desaparecer, para todo o sempre, logo que a onda chegou o mesmo sucedendo à nossa filha Mafalda, no terreiro do paço. Um dos meus ajudantes seria encontrado semanas mais tarde nos escombros da loja; do outro, nada se saberá mais. A minha filha Isabel sobreviverá uma vez que se encontrava com a família real em Caneças mas o noivo morrerá quando a empena de um prédio na rua dos douradores ruir no exacto momento em que ele se encontrar a tentar salvar um homem e uma criança ao seu colo.

QUANTO A MIM, Ismael Portal, ficarei em plena rua, junto ao paredão da Sé em agonia, perto da Sé para onde me dirigirei para assistir à missa das dez, já com o pânico instalado. Tentarei voltar para trás mas serei atropelado por carruagem puxada a quatro cavalos que se espantarão e arrastarão tudo, já que o cocheiro cairá do seu lugar e ficará ferido, ao meu lado, enquanto o rodado traseiro me passará sobre o peito e me quebrará o esqueleto deixando-me sem respirar.
Acabarei por morrer quando a onda com os destroços acumulados pela primeira chegar ás portas de Santo António da Sé e tapar para sempre a luz.

N.R. Ismael Portal nunca existiu mas esta ficção narrada (por mim) depois da trágica manhã do primeiro dia de Novembro de 1755, em que 1/3 da população de Lisboa morreu ou desapareceu, e mais um número incontável de feridos. Um dos terramotos seguido de maremoto dos mais violentos e mortíferos de toda a história...



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29 de outubro de 2017

PORQUE AMANHÃ É DOMINGO


AOS DOMINGOS íamos - o pai, a mãe e eu - almoçar a casa dos avós maternos que ficava para perto do largo da Graça, num rés do chão esquerdo, alto porque a rua era bem inclinada mas o prédio não. 
A viagem de eléctrico só valia a pena sentado no banco dos 'palermas', aquele banco junto à plataforma, com costas para a janela; eu ficava a olhar para quem estava no banco em frente; rostos silenciosos e inexpressivos; se olhavam para mim, escolhia entre um cândido sorriso e uma careta mais azeda conforme a cara do interlocutor me agradava ou não. 
Uns respondiam; outros, continuavam 'palermas'. 
A minha mãe que temia estas terríveis falhas na educação do 'isso parece mal', repreendia-me com um olhar furioso, enquanto o meu pai disfarçava um sorriso, escondido atrás do Diário Popular, com as notícias da véspera.
À tarde, depois do almoço,- sempre bacalhau cozido naquela enorme travessa de cavalinho verde esborratado, as batatas e feijão frade, ai feijão frade e ai batatas que me salvavam - se o tempo o permitia, o passeio até ao miradouro da senhora do monte. 
E era então que o meu avô me sentava no colo e conforme lhe ia apontando o casario, os barcos no rio, o castelo, o mosteiro, a sé catedral, o terreiro do paço, contava-me sempre qualquer história relacionada com ele.
Estava uma manhã de Sol quando me vi sentado no colo do meu avô, num banco de jardim virado para o rio, a ouvir-lhe curioso a história; mas tudo se evaporou quando acordei na obscuridade do quarto...
Da próxima vez que for a Lisboa, vou passar por lá!

22 de setembro de 2017

QUANDO SE ACORDA ANTES DA CASA.


A MANHÃ VEIO CINZENTA. Talvez ainda traga uma chuva a anunciar que o Verão já era e o Outono quer entrar apesar de todos sabermos, alguns por experiência e bem amarga que o clima está a mudar, um pouco por todo o lado, e não é para melhor; ontem quando espreitei a noite, antes de me deitar, não encontrei estrelas ou Lua e agora falta Sol...

ACORDEI ANTES DA CASA, as sete horas tinham começado o seu ciclo. Durante momentos, fiquei de olhos projectados no tecto, sentindo a respiração da companheira que conheci há mais de meio século - apenas o tempo que leva um fósforo a consumir-se na sua própria chama - e a recordar que no 22 de Setembro de 1970, uma terça feira - também a tinha ao meu lado, por esta hora, em Santiago do Cacém, num quarto de hotel no fim da terceira noite de uma lua de mel vivida ao ritmo alucinante que nos obrigava o facto de eu ter de estar em Mafra, logo na 6ª feira, para a 'segunda parte' da instrução militar.

QUANDO SE ACORDA ANTES DA CASA, como eu hoje, há lembranças que saem do silêncio dos móveis, dos quadros pendurados nas paredes, dos livros que se acomodam nas estantes, das fotos dos momentos que a nossa máquina do tempo ainda é capaz de recordar com a saudade que nos deixa felizes com aquele aperto no peito.

ACORDEI ANTES DA CASA e andei por aqui, meio perdido à espera que a manhã me apanhe e me empurre para o dia que já vi cinzento e cansado. Às vezes também me sinto assim! Cinzento e cansado. Hoje pode ser? Não! É melhor não....

4 de agosto de 2017

MARLINDA, LINDA MORENA DE OLHOS DE MAR

TARIFA ERA TERRA DE PESCADORES, no sul de Espanha um areal de cabanões de madeira à vista da praia e de uma dúzia de embarcações de pescadores que eram famílias de pescadores os do povoado a umas escassas doze léguas de Los Palos de La Frontera.
MARLINDA, filha de Sertório e de Tereza, linda morena com olhos de mar, serenos mais verdes que as águas onde os homens ganhavam o pão de cada dia. 

Comemorava, nessa noite de animada festa, os quinze anos, 
já maioridade atingida com a primeira menstruação que lhe aparecera há umas semanas, para alegria da mãe que logo anunciou a Sertório a necessidade da festa.

OS VÁRIOS MANJARES trazidos pelas mulheres da aldeia não passavam agora de restos esfrangalhados e dispersos, sem ordem nem gosto, pela enorme mesa de madeira, pasto para os cães e gatos tão fartos uns quanto os outros, dos ratos e dos restos do peixe que apanhavam dos donos.
OS OLHOS DO RAPAZ alto e sorridente, traje de marinheiro e um jeito de andar com um não sei quê de bailarino, viera de Los Palos, incendiaram-se quando se cruzaram com os de Marlinda para nunca mais se despegarem dos dela e os dela dos dele, o resto da noite, perante os comentários indiscretos das velhas e os gestos de desânimo e de ressentimento dos que esperavam da homenageada os olhares que ela só tinha para aquele que viera de fora e ali aparecera vindo da terra vizinha, segundo se apurou, sem mesmo por lá ter nascido ou se lhe conhecer parente; Braulio, assim se chamava o rapaz, dezanove anos, órfão de pai e de mãe, de terra estrangeira Cuba, povoação no interior do reino de Portugal, onde não havia mar que se visse nem olhos como os de Marlinda.
DANÇARAM TANTO E SEMPRE e como acertavam bem tantos nos viras, como nos bailes mandados ou nas rodas como se fossem par de há muito conhecido. os seus corpos tocavam-se, graciosos e ardentes, nos volteios e cresciam os sussurros mas Marlinda e Braulio, alheios a tudo, vertigem de paixão ansiosa e violenta. Tanta paixão para Braulio que viera à festa só para se divertir e para Marlinda que encontrara o seu primeiro amor, não impediu que o jovem abalasse de novo para Los Palos, ainda o Sol se não levantara pois era lá que iria para a sua grande aventura!
E, QUANDO NA MANHÃ DE 4 DE AGOSTO DE 1492 a frota capitaneada por Cristóvão Colombo largou do porto rumo ao mar infinito na esperança do novo mundo Braulio levava no coração a linda morena de olhos de mar e aquele momento de intensa paixão que tiveram na praia com o testemunho da Lua e das estrelas no pano do céu.
MARLINDA ficou na praia até a manhã acordar com o olhar longínquo, onde o risco do horizonte parece estar a dividir o mundo que diziam nunca ninguém alcançara por mais que se entrasse no mar! Mas ela pareceu ver, bem dentro do mar, perto do infinito, umas velas que se moviam numa pressa de ventos fortes. Era numa dessas velas que ia o seu amor de uma noite que nunca mais veria na sua vida, mas deixara a semente. que faria crescer o seu ventre e o escândalo da desonra que a expulsariam de Tarifa por muitos anos.

Só voltaria que a viu nascer quando o seu pai já era morto e alguém lhe deixou na porta um bilhete que dizia que sua mãe estava muito doente e que queria vê-la antes de morrer.
Entrou no casebre que cheirava a fumo e a doença trazendo pela mão um menino de olhos incendiados de mar, cabelos muito pretos endemoínhados e aquele jeito leve de andar que 
tinha um não sei quê de bailarino.

Os OLHOS DE TEREZA ganharam vida e tantas lágrimas, 

tantas depois de tanta seca que se juntaram às de Marlinda que numa voz embargada de comovida alegria, disse apenas
"Perdoa-me minha querida mãe!"
E, num soluço, estendeu a mão para o menino tímido:
"Este é o teu neto. Chama-se Braulio, como o pai dele"
E a velha mãe recebeu os dois nos seus frágeis braços
que num assomo de energia e de amor, voltavam a ter a idade da força!

NOTAS FINAIS:

Passam hoje 525 anos sobre a data que marca a partida de Cristóvão Colombo, de Los Palos (actual Cádis) ao serviço dos reis católicos de Espanha, Fernando e Isabel, comando a armada que iria descobrir o novo mundo.
A história de Marlinda, imaginei-a numa probabilidade, por certo, tão longínqua como o 'risco que divide o mundo' que nunca se alcança...



3 de agosto de 2017

ÀS VEZES TEMOS DE CONTAR CARNEIROS...


MOHAMED JAMAL AL-KHALIL, Califa de Hafar al-Batin, uma fortaleza rodeada por uns milhares de casebres no norte do oceano saudita, de areias escaldantes, mas muito perto das águas amenas do golfo onde', aliás, se deslocava frequentemente com as suas dezoito belas e jovens esposas e os vinte e sete filhos e mais todos os serviçais do palácio; apesar das enormes riquezas que possuía e da vida faustosa que levava, era atreito a insónias e tinha imensa dificuldade em adormecer. 
Um dia, o seu conselheiro mais íntimo pareceu encontrar a solução - contratar um contador de histórias para o ajudar a adormecer. 
Mohamed entusiasmou-se com a ideia e logo mandou mensageiros por todo o lado à procura de algume que soubesse contar boas e compridas histórias.
Após quase três meses de intensas buscas, finalmente, o conselheiro trouxe à sua presença um velho de andrajoso que se dizia ter imensas memórias que decerto tanto agradariam ao califa e muito prazer lhe dariam em poder contribuir para o bem estar de tão ilustre pessoa.  
O velho aparecia no palácio ao cair da noite e logo se dirigia ao aposentos do califa com livros muito bem escritos e cheios de aventuras tão interessantes que lia, madrugada dentro, com o Mohamed sempre muito atento até que amanhecia e ficava mais uma noite sem 'pregar olho'.
Quase a ser despedido por não saber cumprir o acordado e mais do que isso, ameaçado pelo califa de que lhe mandaria cortar a língua pois era inútil uma vez que as suas palavras não lhe traziam o sono, o contador em aflição resolveu inventar que um mercador rico comprara duas mil ovelhas e precisava levá-las para o seu pasto mas tinha de atravessar um rio muito largo e só tinha um pequeno barco que comportava apenas quatro animais de cada vez.
O Califa precisaria, assim, de ouvir o contador de histórias contar, uma a uma, as quinhentas viagens que o mercador tinha de fazer para passar as ovelhas de uma margem para a outra e como as travessias eram contadas com tanto pormenor que a monotonia e o tédio se apoderavam dele de tal maneira que acabava por adormecer profundamente, sem nunca conhecer o fim da narrativa.
Uma noite, em que já estava preparado para ouvir mais uma travessia, movido pela curiosidade, o Califa exigiu do contador que lhe contasse o fim daquela história pois não tinha já paciência para ouvir mais travessias e podia o efeito ser contrário e não adormecer daquela vez.
O velho recusou prontamente e mesmo perante a insistência do Califa manteve a recusa e tanto que, nessa mesma noite, o Califa o mandou prender por desobediência. 
O califa desesperado por não dormir, foi ao calabouço onde estava preso o contador de histórias e mandou que torturassem o desgraçado dizendo que assim ficava pago o contrato pois também o velho com a sua recusa o deixava numa tortura sem fim. 
Então, o velho com voz débil e amargurada disse: 
- Não vale a pena mandares que me torturem, senhor, pois também eu não sei o fim da história já que também eu adormeço à sua cabeceira, todas as noites,muito antes de terminar a última viagem do barco com os últimos quatro carneiros.




16 de maio de 2017

O MEU PAI NUNCA ME OUVIU...

"O meu pai nunca me ouviu..
Disse-me o Vítor num dia em que, sentados à mesa do café, discorríamos sobre a nossa adolescência quando, depois de quase vinte anos sem nos vermos e nos reencontrámos. 
"Não me recordo de, alguma, vez o meu pai e eu termos tido uma conversa a propósito, fosse do que fosse."

Por detrás das lentes graduadas, foi possível aperceber-me de uma sombra de desapontamento e tristeza no seu olhar pisco. Aproveitei para bebericar o café já que não consegui inventar nada de muito prestável para preencher o intervalo.
Mas ele logo prosseguiu:

"Lembro-me muito bem das viagens que fiz com ele, quando ia visitar as empresas e as herdades e todos o tratavam por senhor engenheiro e para mim, apenas tinham um sorriso comedido e um acenar de cabeça. Acho que já pensavam que, um dia mais tarde, eu também me tornaria engenheiro ou qualquer outra coisa e ficaria assim, sério, reservado e áspero como ele, à frente de tudo aquilo."
Um segundo apenas. Para respirar a frustração acumulada.
"Nunca me ouviu sobre nada. Determinava na sua cabeça e deixava escrito um recado, na secretária do escritório que montara em casa e onde além dele só entrava minha mãe e a Amélia, aquela criada já velha que tu ainda conheceste."
Assenti. Conheci muito bem a Amélia. Aparecia sempre, à hora certa do recreio, na escola, para levar o lanche num cestinho de verga. Pão com compota e manteiga, bolachas e um termo com leite e chocolate quente. 
Teve um sorriso. Eu tinha estado a pensar em voz alta.

"Fomos ficando, cada vez mais longe um do outro. Depois veio a terrível doença. Crises em cima de crises. Ficou pele e osso com os tratamentos de químio e radio. Numa das vezes em que foi à urgência do hospital ficou internado",
Uma pausa para limpar as lentes embaciadas pela emoção.
"Uma tarde, antes da visita, o médico pediu-me para ir ao gabinete e disse-me que provavelmente o meu pai já não passaria dessa noite. E eu, quando cheguei ao quarto, fui segurar-me à cama dele, como se isso evitasse que ele fosse embora para sempre. Pressentiu-me chegar. Virou para mim a face magra, os olhos secos e encovados ainda pareceram sorrir, antecipando um pedido trémulo: 
(Fala comigo...) 
com as lágrimas a escorrerem-me pela voz, sem saber o que dizer quis-me lembrar das viagens que fazíamos e comecei: 
Lembras-te daquela vez que fomos...
foi quando senti que a mão dele que viera trémula ao longo do lençol, agarrar-se à minha na guarda da cama, ficou ali sem fria e inerte. 
O meu pai acabara de morrer sem que eu pudesse dizer que me tenha ouvido, uma única vez na vida...