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É do destino de quem ama ouvir um violino, até na lama. (José Gomes Ferreira)

16 de maio de 2017

O MEU PAI NUNCA ME OUVIU...

"O meu pai nunca me ouviu..
Disse-me o Vítor num dia em que, sentados à mesa do café, discorríamos sobre a nossa adolescência quando, depois de quase vinte anos sem nos vermos e nos reencontrámos. 
"Não me recordo de, alguma, vez o meu pai e eu termos tido uma conversa a propósito, fosse do que fosse."

Por detrás das lentes graduadas, foi possível aperceber-me de uma sombra de desapontamento e tristeza no seu olhar pisco. Aproveitei para bebericar o café já que não consegui inventar nada de muito prestável para preencher o intervalo.
Mas ele logo prosseguiu:

"Lembro-me muito bem das viagens que fiz com ele, quando ia visitar as empresas e as herdades e todos o tratavam por senhor engenheiro e para mim, apenas tinham um sorriso comedido e um acenar de cabeça. Acho que já pensavam que, um dia mais tarde, eu também me tornaria engenheiro ou qualquer outra coisa e ficaria assim, sério, reservado e áspero como ele, à frente de tudo aquilo."
Um segundo apenas. Para respirar a frustração acumulada.
"Nunca me ouviu sobre nada. Determinava na sua cabeça e deixava escrito um recado, na secretária do escritório que montara em casa e onde além dele só entrava minha mãe e a Amélia, aquela criada já velha que tu ainda conheceste."
Assenti. Conheci muito bem a Amélia. Aparecia sempre, à hora certa do recreio, na escola, para levar o lanche num cestinho de verga. Pão com compota e manteiga, bolachas e um termo com leite e chocolate quente. 
Teve um sorriso. Eu tinha estado a pensar em voz alta.

"Fomos ficando, cada vez mais longe um do outro. Depois veio a terrível doença. Crises em cima de crises. Ficou pele e osso com os tratamentos de químio e radio. Numa das vezes em que foi à urgência do hospital ficou internado",
Uma pausa para limpar as lentes embaciadas pela emoção.
"Uma tarde, antes da visita, o médico pediu-me para ir ao gabinete e disse-me que provavelmente o meu pai já não passaria dessa noite. E eu, quando cheguei ao quarto, fui segurar-me à cama dele, como se isso evitasse que ele fosse embora para sempre. Pressentiu-me chegar. Virou para mim a face magra, os olhos secos e encovados ainda pareceram sorrir, antecipando um pedido trémulo: 
(Fala comigo...) 
com as lágrimas a escorrerem-me pela voz, sem saber o que dizer quis-me lembrar das viagens que fazíamos e comecei: 
Lembras-te daquela vez que fomos...
foi quando senti que a mão dele que viera trémula ao longo do lençol, agarrar-se à minha na guarda da cama, ficou ali sem fria e inerte. 
O meu pai acabara de morrer sem que eu pudesse dizer que me tenha ouvido, uma única vez na vida...


30 de abril de 2017

FRAGMENTOS

I
Uma vontade de não querer ter pensamento.
Uma angústia de todas as células do corpo num sentimento súbito de clausura 
numa cela tão inacessível que fugir se torna utopia pois a cela é tudo.

II
A memória, afinal, é uma ilusão.
Porque nunca podemos fazer com que ela nos repita o que nunca fizemos. E, no entanto, as saudades mais cruéis são as que povoam a memória com as coisas que não fizemos ou não vivemos.

III
Não existe um caminho de vida só nosso.
O caminho que escolhemos é constantemente percorrido por outros que escolheram o mesmo caminho.
Ou será que fomos nós que escolhemos o deles?

IV
A vida vai-se em prateleiras numa despensa de factos e de sensações que vamos pondo de baixo para cima e da porta para a parede do fundo.
É por isso que à medida que, quando a despensa vai ficando cheia, chegamos mais facilmente ao mais antigo do que ao que aconteceu ontem.

V
A vida é um baile de máscaras onde para sobreviver é, muitas vezes, necessário por a máscara apropriada.
Porque se formos mascarados de nós mesmos correremos o risco de não acertar com a música.
VI
Não se pode deixar pensar o coração

VII
Na realidade não fazemos anos. Vamos desfazendo-os. Cada dia a mais nas nossas vidas é um dia a menos que vivemos. Não sabendo o tempo que temos de vida, vamos continuando a somar os dias e não a subtraí-los, apesar de estarmos sempre a gastá-los.

VIII
A ideia que temos do passado é de um tempo que não está ao nosso alcance modificar. No entanto, como sempre o podemos revisitar nas nossas memórias, é relendo-o naquilo que não devia ter sido, estamos a modificá-lo, no presente, para não voltarmos a repetir os mesmos erros

IX
O que é preciso é nunca nos rendermos. Quando arranjarmos motivos para não agir, quando não falamos com medo do que dissermos, quando preferirmos estar mais quietos que desassossegados, então estamos lixados!

X
Viver é sonhar acordado porque se a vida não tiver sonho já morremos em vida. Morremos! Não adormecemos. Porque até a dormir, sonhamos...




27 de abril de 2017

DE VEZ EM QUANDO

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De vez em quando deixe-se encantar!
Deixe-se ir, no silêncio de uma bolha de sabão 
levada na brisa suave, de um fim de tarde
equilíbrio espacial, lento, talvez inseguro,
mas sempre com um arco-íris interior.
De vez em quando deixe-se levar!
Não é proibido, sabe? Só deixar ir o coração,
nesse voo de sentimentos e de liberdade
como se à nossa volta tudo fosse puro,
e não houvesse guerra nem dor.
De vez em quando permita-se sonhar!
Um luxo ao alcance de todos, uma inspiração
que devemos manter seja qual for a idade
porque é na sombra do sonho, imaturo,
que está o alimento do prazer e do amor.












De vez em quando permita-se viver!

17 de fevereiro de 2017

ÀS VEZES HÁ LUZES NO CAIS


Da janela do meu mundo, ai de mim, que desespero
sem companhia de estrelas, de lua prateada
sem formas de marfim, sem aquele brilho infinito
fico sem sonho para ver, sem luz para sonhar.
Tacteio com os olhos doridos, num esforço de cego,
um esboço de brilho, uma forma de sonho, iluminado..
À procura de um porto seguro, sonho mais, mais e mais.
E, às vezes, há luzes no cais!

UM SOL SEMPRE À JANELA

NÃO IMPORTA QUAL SEJA A ESTAÇÃO
não importa como acorda o coração
um novo dia é sempre dia de agradecer
Por isso:
se decreta que a partir de hoje,
só vale a vida, em todos os acordares,
mesmo nos mais cansados,
mesmo nos mais penosos,
só vale o sorriso, em todos os olhares,
mesmo nos mais fatigados
mesmo nos mais idosos
só vale a leveza, em todos os andares,
mesmo nos mais pesados,
mesmo nos mais vistosos. .
só vale a ternura, em todos os corações
só vale a paz, em todas as orações.
 só haverá girassóis em todas as janelas,
que devem ficar abertas, de par em par,
para que o homem jamais esqueça
que o Sol é vida e o que importa é amar!

15 de fevereiro de 2017

NOITE DE NAMORADOS

NÃO SEI ONDE ESTAMOS o que pouco importa
porque a noite está a chegar com promessas de amor. 
Há nuvens de luz a nascer por detrás do infinito,
um brilho de estrela que mergulha no horizonte
claridade de sombras que deslizam pelo monte
e uma estrada líquida que reflecte o céu.
A ilha abriga-nos sentimentos; solta-nos intensidades
no crepitar das chamas as promessas de amor eterno.
Olhamos o silêncio das cores, à nossa volta.
Para o meu coração, basta o teu peito.
Para a tua liberdade, as minhas asas.


14 de fevereiro de 2017

DESERTO SEM SEDE


Marcado na face por sulcos de água de sal
não pode ser deserto, antes praia ou pantanal
este imenso areal coberto por um céu quase divinal
até onde o olhar se esforça, impreciso,
até onde tecto e chão se tocam, num traço indeciso.

13 de fevereiro de 2017

SONHO QUADRICULADO

Hoje foi a claridade de um Sol desmaiado por entre uma clarabóia de nuvens, que me acordou. 
E, acordei sem conseguir recordar aquele que (julgo eu) terá sido o último sonho 
que o meu subconsciente quis sobrepor ao real do consciente 
quando este, sem vontade de reter labirintos, deixou a informação perdida. 
Talvez uma noite destas, mascarado de novo sonho, regresse para ficar.
Labirinto nunca será algo imaginado para a gente se perder 
mas um desafio onde procuramos encontrar a saída de uma dificuldade 
ou um despertar da vontade e da perspicácia para essa superação.
Tantos sonhos estranhos que temos não são mais do que os casos e acasos da nossa vida 
que quisemos fechar no lugar mais profundo do labirinto do nosso cérebro 
mas, que uma certa noite, reaparecem disfarçados de absurdo 
que nem vemos a saída tão matematicamente certa 
como uma conta que nem precisa de prova dos nove ao lado. 
São sonhos quadriculados...

10 de fevereiro de 2017

DEFINITIVO


HÁ PEDAÇOS DE ALGODÃO 
soprados por um vento leve 
num tecto de azul imenso e intenso, 
cobrindo dunas alinhadas num sem fim,
tão definitivo de tão belo,
Tudo à nossa volta será um espanto 
se não nos julgarmos donos do que não temos.


COSTA DOS ESQUELETOS

ESTOU NO CIMO DO SONHO, na beira da escarpa, 
imensa duna de amarelada areia pedregosa 
que parece pronta a esfarelar-se sobre um mar 
que dança lá muito em baixo, murmúrio de águas temerosas 
sob um tecto plúmbio, num prenúncio de tempestade. 
Levanto a cabeça quando oiço um bater de asas
de uma formação de gaivotas no infinito à procura de abrigo.
E sinto-me, por momentos, menos só!
Até que as aves passem, num voo libertário que me transcende.