5 de maio de 2023

COGITAÇÕES (DES)TEMPERADAS

 

Ah! Quem me dera cometer um excesso,
coisa assim, de grande mérito.
que pudesse ser sucesso
sem precisar de inquérito
nem perguntas descabidas
nem artes desconhecidas.
Apenas recuar ou avançar no tempo,
fora do tempo.
Amanhã não existe porque ainda não aconteceu.
Ontem também não existe, porque já aconteceu.
Estamos condenados assim a viver no hoje?
Mas, o que é o hoje?
Um amanhã fugaz que logo se transformará em ontem?
Não creio que alguém possa saber o que está para acontecer.
Se se pudesse saber o resultado de cada decisão que se toma
ficar-se-ia refém da indecisão de decidir
porque se acharia, sempre, que a melhor decisão seria a outra.
Quem crê no destino também acredita no livre arbítrio?
Se o destino já está marcado, há liberdade para decidir?
Seja qual for o caminho, o resultado irá ser
sempre o mesmo aquele que o destino pré-determinou!?
Alice apenas queria sair dali por isso, perguntou ao Gato
que caminho deveria escolher.
Mas quando o Gato lhe perguntou para onde ela desejava ir
e Alice lhe respondeu que não tinha lugar nenhum em especial,
o Gato terminou:
"Então qualquer caminho serve..."

3 de maio de 2023

Liberdade é um sonho!

 

A liberdade é um sonho
um voo no silêncio do éter,
no silêncio do ar
apenas para voar.
Sair daqui,
saltar para um balão
fechar os olhos,
uma única viagem
uma única miragem,
para um só lugar
dentro desse teu magnífico olhar.

23 de abril de 2023

 A vida não é sobre o que temos mas sobre o que somos!

Porque a vida ensina a perdoar, parece que já perdoaste.
Porque o tempo ajuda a esquecer, parece que já esqueceste.
E, dizes para contigo: "Já passou..."
Ainda bem que já passou. E, por bondade, compaixão ou seja lá o que for, embrulhas num jornal amarrotado, uma data sem data e na mais recôndita gaveta da mente assim fica. Dormente!
Mas, um dia acordas de repente e pisas um pequeno caco, um pequeno pedaço de vidro, um destroço, uma coisa de nada que ficou esquecida no chão da realidade e tudo regressa. E tudo volta a doer.
("... aliás, o tempo não cura nada. Apenas tira o incurável do centro das atenções..." Fernando Pessoa.)

ENTRE UM CÉU IMAGINADO DE ESTRELAS

 

Entre um céu imaginado de estrelas
e um chão à espera de um Sol que não vem
há toda uma noite por fazer.
O vento corre, apertado e liso, entre casas suspensas em telhados altos que parece desabarem na viela. A roupa estendida pelas varandas nas cordas dos varais como bandeiras abraçadas, num ruído de velas ao vento.
As escadinhas de corrimão ao meio têm os degraus gastos pelo tempo e pelos passos perdidos no vai e vem da vida. No pequeno largo de chafariz de fora, a velha figueira continua a sombrear o velho banco de tábuas que já foram pintadas de verde mas que o tempo deixou uma cor indefinida.
A porta de postigo verde e o degrau onde te sentavas nos fins de tarde, à minha espera. Mal eu punha o pé no último degrau, corrias ao meu encontro com um sorriso que se confundia com os malmequeres do vestido e na vertigem de uma volta, rodopiávamos abraçados, assim como nos finais daqueles filmes onde haja um largo e um par de amantes apaixonados.
Já passaram tantos anos...
O vento continua a correr mas já não estás para me abraçar e, eu só te consigo ver se cerrar os olhos.

11 de abril de 2023

ELA É TÃO LIVRE QUE UM DIA SERÁ PRESA

 - Ela é tão livre que um dia será presa.

- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingénua.
- Então porquê a prisão?
- Porque a liberdade ofende.
(Clarice Lispector)
Só muito "de vez em quando" é que encontramos alguém cuja energia combina com a nossa mas, também sabemos, que muito mais "de vez em quando" alguém tem alguma coisa que combina conosco, mesmo antes de nos encontrarmos.
Há muita coisa que vale a pena mas também há muita coisa que não vale a pena. Mas, as escolhas do que vale e não vale a pena serão sempre nossas. Há momentos em que, a melhor escolha é, simplesmente, não escolher coisa nenhuma!
Todas as fotografias são, na verdade, um instantâneo de um filme que ficou gravado na nossa memória. Quando olhamos uma foto e nos vemos ou não, reconhecemos que aquela foto contém, muito mais história que ficou associada àquele "flash".
Fernando Pessoa disse:
"Põe tudo o que és, na mais pequena coisa que faças." Ou seja, dá o melhor de ti mesmo quando ninguém acreditar e assim, aquilo que fizeres poderá ter o tamanho do teu sonho!

8 de abril de 2023

ESTADO DE EMERGÊNCIA


Abro a janela do quarto, no silêncio
das ruas e das praças desertas
da minha cidade abandonada
cheia de pessoas por dentro!
Será que alguém ainda se lembra
para que lado está o futuro?
Será que ainda temos tempo para voltar
ainda temos forças para amar?
Deixo a janela aberta, respiro
fatia de Sol num chão de sombras
enquanto o silêncio vai envolvendo
o cenário, despido de esperança;
e, depois, só resto eu (à janela)
e a natureza que não dorme!
(MJS, Eu e os meus fantasmas, 2020/04)

23 de março de 2023

VIVER, VIVER, VIVER.

 

Um girassol à janela
O Sol a dourar a vida
O dia a iluminar monte
Um dia sem maus humores
Água fresca na fonte
Almoço pronto na panela
Rir como uma criança
Boas memórias dos tempos idos
Olhar com olhos de esperança
Ouvir uma palavra amável
Escrever um poema de amor
Que nunca será rasgado
Rever uma velha amizade
Esperar alguém na estação
Ter uma surpresa agradável
Um aperto no coração
O par ideal, o gesto afável
Ao lado da pessoa amada
Lembrar histórias sem idade
Ouvir o canto da passarada
Um momento de claridade
Abraçados à beira mar
O disco vermelho no horizonte
Um céu de fogo invisível
De uma beleza terrível
O dia a acabar no monte
A noite de Lua iluminada
O jantar a dois no alpendre
O perfume a lavanda no ar
O queijo com marmelada
Vinho branco bem gelado
Uma saúde num beijo selado
O ombro sempre amigo
A cadeira de embalar
Um silêncio de noite suave
O Bolero a rematar
O húmido da noite a descer
Um cheiro a terra molhada
O desejo de amor a crescer
Um dia que valeu a pena
Viver. Viver. Viver.

13 de março de 2023

A VIDA É DE QUEM SE ATREVE A VIVER

 

Todos os dias, sem excepção, temos oportunidade de aprender e parte dessa aprendizagem é aceitarmos que há coisas que não se podem modificar. E sim! Há outras coisas que parecem vir do nada e tornam-se tudo ou quase tudo, nas nossas vidas.
Focamo-nos nelas como as mais importantes e vivemos com elas em momentos de angústia pelos danos que causam, momentos de esperança na luta por melhores dias e momentos de ultrapassagem que nos levam para além de nós onde arranjamos força, sabe-se lá onde para não desistirmos.
208 ossos, 650 músculos mais de cinquenta mil milhões de células.
Cabeça, braços e pernas. Olhos, nariz e lábios. Cérebro, coração, pulmões, estômago, fígado, rins... sabe tão bem chegar ao fim do dia e espalhar isto tudo numa cama e ficar com aquela sensação de paz garantida. E, acordar na manhã seguinte com o sorriso de bem estar para iniciar nova etapa. É tão medicamentoso e gratificante que tudo é mais leve na nossa vida.
Ideias à solta na minha agenda de Viver.
Também é saber esperar
A chuva passar
O vento amainar
O Sol chegar
O bom tempo aparecer
E levar-nos para onde o coração quer estar.
Acreditar
É ser capaz de continuar
Com um sorriso para dar
Mesmo que o chão se conheça incerto
E a subida no caminho pareça não ter fim.
Audácia.
Coragem, força desafiante e coisas maravilhosas.
Quando menos se espera.
Mas sem amor não as saberemos reconhecer.
Hoje, deu-me para filosofar.
À hora do jantar.
Um catálogo de ideias que até pode "saber a clichés" mas...
pode ser um "diário de vontades".

12 de março de 2023

COMUNICAÇÃO

  

Na idade da pedra lascada comunicar seria, talvez, à pedrada!

Porque não? Se pedra era o que havia mais à mão.

ou talvez à cacetada.

Num frente a frente, trocavam-se até uns murros.

De forma diferente, comunicava o homem de então.

Enquanto não aprendeu a falar, seria aos berros, aos gritos, aos urros.

Para abreviar a questão! Tudo era comunicação!

 

Mas, numa tarde de trovoada, quando andavam à pedrada,

saltou faísca de uma pedra; ou terá sido antes um raio(?)

Uma pequena chama se fez grande, enorme, de meter medo.

E não mais se apagou. Castigo dos deuses (está visto!)

Nunca vista por ali, tal coisa.

Abrigaram-se os homens nas grutas do medo,

bem como todos os outros animais

A fogueira poderosa não acabava. Chamas. Labaredas,

Um enorme calor

Estava tudo a arder que era um pavor,

Era preciso fugir. Quem não quisesse morrer.

Mas, passado algum tempo, houve quem descobrisse a solução.

Um pequeno tronco, um ramo a arder, bem seguro na mão

Dominar o fogo, descobrir-lhe utilidade. Um archote,

E o homem acabou com a agitação!

Subiu aos altos dos montes e nasceram mais fogueiras,

Iluminou-se a noite de outras maneiras,

Sinais de fogo, sinais de fumo…sinais e mais sinais…

e das paredes das grutas saíram linhas simples, desenhadas

Arcos, flechas, lanças, humanos e animais, riscos, traços,

Desejo de comunicar a vida em toda e qualquer parte

A comunicação. E hoje chamamos-lhe arte.

Pedras para riscos, pedras para escrever,                                                                 

pedra roseta, tábuas de madeira, papiros, pergaminhos.                                          

Símbolos simbolizados por letras, códigos, alfabetos,                                      

Palavras, frases, ideias, como se fosse alguém a dizer

Para toda a eternidade! Para sempre, sem nunca morrer!

Oh! Cheira aqui a queimado. Há um fogo por dominar!

Tocam os sinos a rebate. É preciso comunicar!

Vai gente a correr pró combate. É preciso apagar…

 

E eis que chegou o papel!

Bibliotecas do saber, a informação, folhas e mais folhas,

Textos e mais textos, livros e mais livros, cadernos, revistas, jornais,

Árvores que ardem, árvores que se abatem, árvores que morrem.

Árvores que se transformam em livros, cadernos revistas, jornais,

Saber ler. Saber ouvir. Saber escutar. Comunicar.

Sempre a comunicar.

 

Telefone. Telégrafo. O cinema aprende a falar.

A voz. O som. A Imagem. A rádio. A televisão.

O satélite no espaço a girar. Dispara-se um foguetão.

“Dabliu”, “Dabliu”, “Dabliu”.

A tontura do progresso para além da imaginação

A vertigem da velocidade, chegou a globalização!

Esta coisa de ser chique. Tudo à distância de um clique!

A notícia em directo, o acontecimento antes de acontecer

Pode ser um grande sucesso ou uma enorme catástrofe

Smartphone, iphone, tablete, comunicação até mesmo na retrete.

Conversa, email, livro, jornal, realidade ou fantasia,

Cada vez mais virtual, no nonassegundo, pelo éter

Amor, paixão, amizade, crise do coração,

Ler, escrever, conversar, apostar, dizer bem e dizer mal.

Nem bem, nem mal, nem coisa e tal, antes assim.

E a estranha sensação de que quanto mais informados estamos,

Mais sós nos sentimos, mais virtuais nos transformamos

E menos comunicamos."

 

( Mário Jorge Santos, in “Memória Descritiva”, 2019 )

9 de fevereiro de 2023

AO CAIR DO PANO

 

"Quem nunca caiu não tem bem a noção do terrível esforço que é preciso para se manter de pé."
Não sei quem é o autor desta frase mas ela é verdadeira quer a vejamos pelo lado estritamente físico como pelo lado figurado.
apenas seis meses atrás eu não sabia andar, ou melhor, deixei de saber andar porque o tumor que me comprimia as vértebras e invadia a medula espinal não deixava que as ordens do cérebro chegassem às pernas e ordenassem põe-te a andar! Tinha então a sensação que caminhava permanentemente sobre grãos de areia, descalço ou calçado, e a perna esquerda deixava, de repente, de obedecer e... eu caía!
Depois, a radioterapia operou o pequeno milagre, o tumor recuou e eu fui ganhando a capacidade de voltar a andar, apoiado numa primeira fase num andarilho, de seguida numa bengala, não fosse recuar no progresso, e finalmente atrevi-me e passei a andar como um bébé ou quase, sempre muito incerto mas com vontade.
Hoje estou a andar como qualquer pessoa embora ainda aguente pouco pois os músculos ainda estão fracos e não consiga correr em segurança, por isso prefiro continuar só pelo andar.
Outra coisa é o sentido figurado da frase.
Para muitos de nós o esforço para se manterem "em pé" torna-se hercúleo e não raro, impossível de sustentar em permanência. As quedas são perigosas e muitas vezes irrecuperáveis.
"Quanto mais alto se sobe de mais alto se cai e, logicamente, maior é a queda".
Os tropeções da vida colocam-nos à prova.
Mas não creio que sejam desígnios divinos. A responsabilidade é nossa. Somos nós que numa maneira ou de outra os provocamos.
Assim, ou percebemos exactamente o que nos acontece ou ficamos sem remédios que nos permitam evitar nova queda; não sabemos o que nos aconteceu e porque aconteceu dessa forma e ficamos sujeitos a novas contrariedades sem nos darmos conta que são tão semelhantes às anteriores.
Por isso, acreditem. É sempre muito mais avisado sabermos o que temos e com o que podemos contar; depois será a nossa força e capacidade de luta contra a adversidade que temos de chamar.
E vale a pena não nos entregarmos.
A vida continua à nossa espera para nos conceder novos prazos, pôr-nos perante novos desafios, colocar-nos novas possibilidades de sairmos vencedores ou não. Mas, a única derrota que podemos ter é se desistirmos!