22 de fevereiro de 2018

CENAS VIOLENTAMENTE CASEIRAS


ERAM SETE DA MANHÃ. Dois carros com as luzes azuis a crepitar nos tejadilhos e sirenes mudas atravessaram-se na rua à porta do quarenta e um, o prédio em frente aquele que habito. Três agentes entraram, passo apressado e um quarto ficou na porta. Alguns vizinhos vêm às janelas. A dona Emília, bisbilhoteira de profissão que habita o rés-do-chão esquerdo já está à janela para a reportagem que sairá em primeira mão na leitaria Mimosa do Largo enquanto toma a meia de leite e mastiga a meia torrada sem côdea. 

Uma luz meio azulada de um fim de madrugada já amanhecer de Verão quente, subia das bandas do rio, rua acima.
Ela tinha tentado espetar-lhe uma faca no peito. Ele defendeu -se, atacando. Um estalo. Um empurrão e foi quando ela caiu para cima do pechiché e o espelho se partiu. Foi quando ela gritou. Mais um estalo e ela atirou-lhe com o banco de quarto.

A vizinhança tinha outra opinião. Aquilo era sexo duro demais. Ciúmes a mais. Às vezes chegavam tarde demais. Lá vinham dos lados das Janelas Verdes - dona Emília ouvia-os e via-os atrás das cortinas do quarto do rés-do-chão - embriagados e cheios de nuvens na cabeça - não seu se me entendem, dizia ela - afinal talvez tivesse sido ele a empunhar a faca e ela na aflição a tentar fugir. Ela manicura. Ele, ninguém sabia bem.

Desceram. Os dois. cada um acompanhado por um agente a segurá-lo pelo braço. Havia sangue no rosto dela. A cabeleira loura desalinhada e um chinelo no pé direito, um rasgão na camisa de dormir e parte da coxa à mostra. Ele de tronco nu com uns calções a escorregarem pela cintura. Ainda se ouviu uma pergunta. Era ela, antes de entrar para o carro da polícia.
"Oi amor, levas o iphone?"