24 de maio de 2019

A ABRIR


Às vezes acordamos os sentidos antes do Sol recomeçar a amanhecer as nossas vidas mas, porque é segura a certeza de que não vai falhar essa manhã de céu transparentemente azul, ainda com restos de cintilações e uma lua a esbater-se sem surpresa, assim ficamos a aguardar na redentora luz que a vibração das cores e o afago do calor dêem vida a mais um dia das nossas vidas!
Depois, cabe-nos ajudar a fazer de cada dia, uma festa.

5 de abril de 2019

REFLEXÕES NOTURNAS A OUVIR A CHUVA CAIR

INVERNO (OUTRA VEZ)
Nos dias lentos, com mancha de inverno, sombrio e líquido,
a cair sobre uma primavera multicor ainda pintada de fresco,
o bom é não exasperar o tempo, nem com o tempo,
e entre a leitura, a escrita e música suavemente duradoura
que acompanhe de longe o nosso melancólico sossego
e faça por ignorar a chuva inquieta e o persistente cinzento.
Terei chegado à idade das revisitações?
A verdade é que, principalmente nestes dias, vagueio mais.
Não são apenas visitas ao passado; são mais revisões!.
A vida já vai longa e nem sempre correu conforme o plano.
Aliás, poucas vezes o terá seguido,
assim descobri que o improviso também tem beleza.
pelo menos, dá-nos a segurança de dominar o imprevisto.
Por vezes, parece ser como um sonho que se precipita
e acorda num sobressalto, antes do tempo certo.
e improvisar é saber lidar com esse impreparado acordar.,
Revisitar a própria vida, é mais do que um exercício
é um interessante modo de dar leveza à vida
de aprender a perdoar-se, de nunca amordaçar o sonho
é uma arte viver de bem consigo próprio.
Aprendi a fazer humor daquilo que me aborrece
porque a vida tem mais interesse se tiver graça.

Notas finais (sugerências):
leitura:( Vaticanum de José Rodrigues dos Santos) 
escrita: qualquer papel serve, desde que não o deixem em branco
música ao longe (.W. A. Mozart, Sifonia Opus 40 / Leonard Bernstein, orquesta filarmonica de New York
.

1 de abril de 2019

AO CAIR DO PANO

É o silêncio da noite que amplia os sons da noite
A música, oiço-a ao longe, translúcida e leve
E há, tenho a certeza, um violino que chora
Sons hesitantes, unidos numa espécie de lamúria
De quando em quando, interrompe-se num silêncio breve
Talvez seja a negrura da noite que lhe magoa a melodia
Lhe desconcerta a consonância, lhe fere a fúria
Talvez seja a lua quase nova, num estertor minguante
Que não abra caminhos de prata nas águas da baía
Ou estrelas vagabundas escondidas atrás das nuvens
Não sustentem o sonho, seja por um instante
Por tudo isto ou por outra razão qualquer.
Amanhã, quando nascer uma nova claridade
Talvez o violino se alegre, se ainda lá estiver!
E me rasgue esta saudade...

27 de março de 2019

AMANHECENDO

Se o sonho deixasse de dar à vida 
aquela sensação colorida de uma loucura sã; 
se a esperança deixasse de amanhecer

em cada aparecer,
se não houvesse aquele brilho de vontade
que rejuvenesce sempre aquela busca pela felicidade,
não passaríamos de peregrinos incertos, esgotados
pelas nossas próprias pobres existências

Mas, cada novo amanhecer traz consigo o sonho
Sonho de um novo tempo, de escrever novas histórias,
fonte inesgotável de possibilidades de sermos felizes.

E assim, vamos esperançando caminhos
onde nos vamos perdendo,
nos vamos encontrando,
nos vamos reinventando..
sobretudo, reinventando,
renascendo em cada amanhecer.

26 de março de 2019

ACORDAR ANTES DA CASA

07H12. 
Lá fora o dia já acordou. 
Na casa ainda há silêncio feito de restos de noite e de sonhos. 
E, no entanto, é o chamamento da claridade do dia 
que me faz sair da cama num gesto sorrateiro, 
quase sem afastar edredão, 
como quem está a sair de um fórmula um, 
digo eu, que nunca entrei e portanto também nunca saí de nenhum 
mas, imagino seja assim, 
como quem sai da cama sem querer fazer muito estardalhaço.

Hoje, tudo acontece à velocidade do relâmpago..

Já não nos contentamos com dias de 24 horas. Não há tempo. 
Mas, na impossibilidade de esticar o tempo, 
falsificamos a vida dando-lhe velocidade. 
E, já nem nos apercebemos disto.
Ainda não há 50 anos, por exemplo, para fazer a foto do meu pequeno almoço 
e enviar para o mundo seria impossível fazê-lo em menos de alguns meses
para não dizer que seria impossível de todo. 
Hoje, basta tirar a foto com o smartphone e partilhá-la numa rede social. Já está!

Pergunto a mim mesmo, 
enquanto te olho ainda a dormires profundamente. 
Quantas vezes dormimos juntos? 
E quantas não dormimos, apesar de juntos? 
Assim, de repente, não faço ideia mas, foram muitas, 
umas e outras, 
até porque nos conhecemos há quase 54 anos 
embora só começássemos a dormir juntos anos mais tarde. 
E a não dormir, também! 
Nesse tempo, as coisas andavam muito mais devagar. 
Até o amor!

E, sabem que mais? 
Vou tomar o pequeno almoço que o café já fumega.Servidos? 
É ali mesmo, junto à janela que dá para o dia.

14 de março de 2019

UM DIA...

Um dia
descobriremos que beijar uma pessoa para esquecer outra,
é disparate; não só não a esqueceremos 
mas pensaremos muito mais nela...
que apaixonarmo-nos é violentamente inevitável
mas, ao mesmo tempo, é uma alegria de momentos únicos.
e também perceberemos que as maiores provas de amor
são sempre as mais simples.

Um dia
descobriremos que a pessoa que parece não nos nunca ligar
é a que mais pensa em nós...
que somos muito importante para alguém,
mas nunca demos valor a isso...
como aquele amigo nos faz falta, mas é tarde demais...
.
Um dia
descobriremos que a insuficiência do tempo que vivemos
se deve, apenas, ao tempo que desperdiçámos
sem fazer o que devíamos ter feito
sem dizer o que devíamos ter dito
sem sonhar o que devíamos ter sonhado..

12 de março de 2019

SOLIDÃO É NÃO GOSTAR DE SI PRÓPRIO



EU e EU
Em mim existe esta serena constância 
de ter sempre a minha companhia
Concordantes ou em discordância
eu e eu
sempre juntos, sem distância,.
sou o meu melhor amigo.
Eu e eu.
Se discuto comigo? Com certeza!.
Porque amigo não é ser sempre 'porque sim'
pelo que vale a pena ser, sou simpatia
no que não vale por não ser, sou não!
Escrever é nunca estar sozinho
No papel me escrevo, me leio e me emotivo.
nas palavras me invento no caminho. 
Eu e eu
Sou assim nos desertos, nos silêncios, nas ausências
no meio de multidão
Mas, porque gosto da minha companhia
engano sempre a solidão!
(Mário Jorge Santos, 'eu e os meus fantasmas' - 2018)
Tenham uma excelente noite!

17 de setembro de 2018

PROVOCA-ME!

PROVOCA-ME como só tu sabes
olhos negros, brilhantes
lábios carnudos, vibrantes
rosto todo ele paixão
Excita-me como só tu fazes
seios espetados, picantes
pernas cruzadas, exuberantes
corpo todo ele tesão.
Enlouquece-me como só tu consegues
sorriso cheio de promessas
e eu fico às avessas
sem chão!


(Eu e os meus fantasmas, Mário Jorge Santos, 2005)
QUANDO TE INVENTEI
eras uma teimosia em forma de resistência;
uma força onde se sentia segurança,
um rosto onde se lia determinação
e um olhar banhado de esperança
que te subia do coração.
Por seres tudo aquilo que eu não era
um ânimo que não eu (tu nem sabias de mim)
de dia, seguia-te escondido na minha própria sombra
e de noite, sonhava-te no escuro da solidão do ser só.
Se soubesses de mim, ficaria teu escravo
e desprezar-me-ias, por saberes, demasiado tarde
do meu amor egoísta, interesseiro, cobarde.
Um dia desapareceste (ou fui eu que te esqueci...)
Porque foi que morri?
(Eu e os meus fantasmas, Mário Jorge Santos, 1980)

16 de abril de 2018

NO TEMPO EM QUE TUDO ANDAVA MAIS DEVAGAR

No tempo em que tudo andava mais devagar eram os fins de tarde demorados e calmos, debaixo do alpendre, com a planície quieta e imensa ali ao alcance da mão que me deixava no sonho de que um dia voltaria a ver-te e iria ficar contigo pelo tempo que ainda nos restasse viver.
E aparecias-me na mansidão de uma brisa morna, ficávamos de mãos dadas, dedos entrelaçados como nos cestos em que o vime lhes dá segurança, a tua cabeça no meu ombro e os nossos olhos na direcção de um sol incendiado a cair ao longe por detrás do grupo de oliveiras.
A noite chegava devagar até que se fechava, pejada de pontos brilhantes, uma lua madrugada dentro a entrar pelo quarto e a encher de reflexos de prata aquele nosso momento de amor.