18 de junho de 2016

VEM, MEU AMOR, SENTAR-TE COMIGO



Vem sentar-te comigo, à beira rio
ver a vida que passa na torrente
onde o céu espelha, mansamente,
a palidez do dia, levemente dourada,
enquanto o Verão que amanhece.

Vem sentar-te comigo, à beira rio
ouvir a melodia que chega de repente
das margens da floresta, suavemente,
de felicidade, eternamente afinada
enquanto o nosso amor acontece.

Vem, meu amor, sentar-te comigo..



16 de junho de 2016

SABE O QUE É D.A.D.I.? NÃO? ENTÃO EU EXPLICO!


Hoje decidi lavar o carro. Dirijo-me à garagem. Mas, ao apanhar a chave da garagem no chaveiro junto à porta reparo que há cartas por abrir sobre a mesa por baixo do espelho veneziano que o meu avô tinha comprado num leilão, na entrada, onde está também a jarra com flores e aquela pequena terrina Vista Alegre que os tios ofereceram no dia do casamento. Já passaram quarenta e quantos anos? Sete ou oito? Bom, isso agora não importa nada. 
Resolvo, então, abrir as cartas antes de lavar o carro!
Pouso as chaves do carro e da garagem em cima da mesa junto da terrina e regresso à sala com o pequeno monte de cartas que deixo em cima da mesa baixa junto ao sofá, enquanto procuro o estilete para abrir os sobrescritos.
Mas, olho melhor o correio e noto uma série de prospectos e de 'flyers' com publicidade a tudo e mais alguma coisa. Tenho afixado na caixa do correio o dístico de 'favor não deixar publicidade' mas não resulta. Resolvo, então, que é melhor desfazer-me primeiro daquilo e dirijo-me à cozinha para deitar os papéis no recipiente respectivo.
Mas, logo a seguir, veio-me pensamento mais racional.
Já que tenho de abrir os sobrescritos, faço isso primeiro, vejo o que há para fazer e no fim livro-me dos papeis todos de uma vez. Há facturas da electricidade e gás para pagar e a prestação à sociedade financeira, do empréstimo que pedi no mês passado para arranjar o telhado da garagem.
É melhor despachar isto primeiro. Dirijo-me ao escritório onde tenho o 'pc' para poder pagar através do 'home banking'. 
É quando vejo em cima da mesa a garrafa de cerveja mini ao pé do pratinho com duas madalenas e umas migalhas que ficaram ontem do lanche, com certeza. Já não me lembro bem! Decido, então que é melhor levar aquilo para a cozinha, antes do mais, e ir buscar um pano para limpar a mesa das migalhas que caíram do prato.
Só então reparo que deixei os óculos na mesa baixa e não vejo o comando da televisão que me recordo de ter deixado, ontem, no sofá. Vou buscar os óculos e afinal o comando não está no sofá!
É melhor encontrá-lo antes que ela venha da caminhada e queira ver o programa da Júlia ou outra porcaria qualquer. Dou a volta pela sala e nada...
De repente lembro-me de que o tinha visto numa das cadeiras junto à mesa. Vou buscá-lo antes que me esqueça do sítio onde o vi e ela chegue.
Toca o telemóvel. É o meu! Onde é que ele está mesmo? Sigo o ruído do toque - aquela música dos Beach Boys, lá lá lá, como é que se chama? - Ahhhhhhh! Como raio foi o telemóvel parar à prateleira onde está o relógio com a bailarina que pertenceu à minha tia? Bem, não interessa!
Atendo! É ela! Avisa-me de que ainda vai passar pelo mercado e pede-me para ir buscá-la ao café daqui por uma meia hora! OK! É melhor despachar-me depois de ir à casa de banho...
Afinal, ainda vou ter de me vestir. Vinte minutos depois estou pronto para sair mas....
Não encontro os óculos. Então e as chaves do carro? Talvez as tenha deixado no carro. Não é costume, mas... o pior é que não encontro a chave da garagem!
O melhor é ligar-lhe de volta e perguntar se mexeu na chave.
Mas como vejo a porcaria dos números no telemóvel? Onde será que deixei a merda dos óculos...

D.A.D.I. é DEFICIÊNCIA DE ATENÇÃO DEVIDO À IDADE!
também há quem reduza a uma simples PDI....

Ou seja: não lavei o carro, perdi a chave da garagem e já agora as do carro, não paguei as facturas, a garrafa mini, as madalenas e as migalhas continuaram em cima da mesa.
Ela teve de vir a pé com o saco de compras e chegou pior que uma barata, cansadíssima atirou-se para cima do sofá e começou logo a mandar vir com a papelada toda em cima da mesa.
E o pior foi quando quis ver a Júlia e eu não sabia do comando....
AH! A merda dos óculos? Tinha-os espetados no alto da cabeça!

7 de junho de 2016

COM UM ENCOLHER DE OMBROS

Com um encolher de ombros
adiamos aquele encontro
porque achamos que amanhã, ainda é vez;
com um encolher de ombros adiamos aquela conversa

porque achamos que amanhã, talvez;
com um encolher de ombros adiamos aquele pedido de desculpas
porque achamos que amanhã, será melhor
com um encolher de ombros adiamos aquele abraço e aquele beijo
porque achamos que amanhã, ainda é tempo!

Com um encolher de ombros vamos adiando aquele amanhã
porque achamos que quanto mais amanhã for,
por esquecimento, por cansaço da dor
com um beijo e um abraço, tudo irá passar.


Com um encolher de ombros
cuidado que o amanhã pode não chegar...

20 de maio de 2016

CAMINHOS PARALELOS


Ficaram paralelos, os caminhos,
à distância de um braço
à distância de um afago
à distância de tão pouco
à distância de um beijo
à distância dum desejo
à distância de um passo.
Andamos lado a lado,
finges que não me vês
e finjo que não te vejo.
tu e eu, num silêncio calado
Ficaram paralelos, os caminhos
e ficaram esquecidos carinhos.

16 de maio de 2016

UM DESEJO


O vento calou-se quebrado num repente.
e o céu ficou limpo de algodão

numa pincelada de azul transparente, 
A água voltou a correr só pelo chão
deixou de andar pelo ar, de cair do céu
de inundar o meu coração.
O mercúrio voltou a trepar a escala
por todo o lado, o grito das flores
num cenário salpicado de cores.
O voo veloz, irregular, da passarada
num espalhafato de miúdos traquinas
como os jogos de apanhada.
É a minha alma que rejuvenesce
nesta pressa de afastar o que entristece
no cinzento dos dias e no frio de esquinas.
Um desejo da Primavera que se anuncia!

13 de abril de 2016

PRIMEIRO BEIJO


A noite, de ínfimos pontos brilhantes, ilimitada.
A cair para trás do monte, uma meia lua afogueada
A respiração é aperto de coração aprisionado
e o teu corpo, no meu abraço, aprisionado
As minhas mãos à procura de mais que mãos
Olho-te na lentidão de quem não quer que o tempo ande
e pela cabeça passa-me um impulso fascinante.
As nossas bocas entreabertas aproximam-se
e os nossos lábios tocam-se, breve arrepio.
Depois, esfregam-se numa espécie de dança
Entregam-se como corpos que fazem amor.
de quem não se quer largar nunca mais.
Há brilho de estrelas a caírem pela noite.

21 de março de 2016

(RE)AMANHECER


Um clarão explode a leste no cimo da encosta
desce entre pinheiros, gigantes vagabundos
numa sinfonia de sombras, de costa a costa,
até se espelhar na serenidade do rio, nas mimosas,
a incendiar as margens, numa desordem de ouro.



Corpos menos jovens por tantas primaveras gastas,
gestos mais lentos por tantas primaveras esquecidas.
Mas...amanhece o tempo da primeira vez, 
de quem não precisa de mais nada para se ter
no silêncio das palavras que já não é preciso dizer.


16 de março de 2016

UMA LEGENDA (talvez demasiado comprida) PARA A FOTO DO MEU "ALBÚM DE FALHAS DE MEMÓRIA"


Quando a encontrei em casa de minha mãe, há uns largos anos, a foto perdia-se no meio de muitas outras mas quando lha pedi para fazer uma cópia; qual cópia!? Levaria aquela do avô que eu mal recordava visto ter falecido, ainda eu não completara os cinco anos.
Portanto, aquela foto era a última que existia com o meu avô e os dois únicos netos. O João e eu. No verso, o local e a data, com a letra grande e trémula da minha avó, talvez escrita com aquelas canetas antigas,
um grande aparo de molhar num tinteiro daquele azul 'Quink'.

"Senhora do Monte da Graça", 18 de Março de 1953

Esteve, anos e anos, guardada no album de família, até que um dia, não posso precisar qual, encaixilhada, saltou para a prateleira mais alta, á frente dos seis volumes da obra completa de Vítor Hugo e assim ficou em lugar de destaque, apesar de todas as mudanças de casa, de novos arranjos decorativos, de diferente disposição dos móveis pelas salas, etc.

"Senhora do Monte da Graça", 18 de Março de 1953.

63 anos...Faltavam poucos dias para a Primavera quando a Primavera não falhava o equinócio como agora que se atrapalha em demasia nas voltas de um clima transtornado..
O meu avô Adriano já minado pela doença que lhe dizimou o pâncreas e outros órgãos vitais e acabou com as suas últimas forças, viria a morrer seis meses.
O meu primo João, mais velho do que eu 12 anos e uns meses, naquela pose de galã cinematográfico, no seu belo fato domingueiro e gravata às riscas nó aprumado, Eu, o puto, de pernas magricelas e olhar enrugado pelo Sol, na borda do banco com a mão protectora do avô Adriano.
Estar horas seguidas com ele a mostrar-me revistas de instrumentos musicais do negócio da Casa Valentim de Carvalho, cuja loja na Rua Nova do Almada, em Lisboa, ele esteve à frente durante várias décadas. e eu a ouvir as diferenças entre um piano e uma pianola ou porque grafonolas produziam música a partir duns discos grossos feitos de plástico e uns riscos onde uma agulha, semelhante à da máquina de costura da minha avó, encalhava e girava até acabar no centro..
E, o meu primo João, que foi aquele irmão que eu não tive e eu para ele também o irmão mais novo que ele não teve, nos jogos de futebol que fazíamos na marquise da casa com as balizas na porta da casa de banho e na porta da despensa, para desespero da minha mãe quando, ainda por cima, o meu pai fingia ser um árbitro de jogos que só por milagre não produziam estragos.
Ambos tiveram mortes prematuras e dolorosas que senti, claro, de maneira e intensidade diferentes.
 
Mas, hoje quando olho aquela foto 'à la minute' sinto que é uma daquelas que diz muito mais marca que o instantâneo em que um avô e dois netos se sentaram a desfrutar uma tarde de pré Primavera no miradouro da colina mais alta de Lisboa!
Ela é toda a história de todos os anos vividos que a minha memória não reteve mas pode imaginar como foram bons com aqueles dois excelentes companheiros.....

10 de fevereiro de 2016

DESABAFO



Está tudo tão estranho (esta noite)
A lua ausente quando costuma estar pendurada na janela
e o céu numa capa de veludo negro
quando costuma ser pano bordado de missangas cintilantes;
Não me venhas com truques, nem subtilezas,
mascarada de velha bruxa, só porque é carnaval!
Não me venhas iludir certezas
nem mostrar as chagas da natureza.

29 de janeiro de 2016

O ESBOÇO

Anda de boca em boca, apenas esboço
que todo o mundo passou a dizer mal.
Um buraco sem fundo, um escuro poço
um deserto de areia movediça, lamaçal.

Também pode ser um fruto ou só caroço.
Talvez tubérculo ou um simples vegetal.
Ao rosnar que se ouve à volta, será osso
tão duro de roer e ainda longe do final.

Desenho, rabisco ou rascunho; é a mão
que s' estende pra tirar o país dum desalento
para dar força à vontade; uma luz na escuridão

Governo e oposição, disputas no Parlamento
a Troika em Lisboa, em Bruxelas, a Comissão
por este andar, nunca mais há Orçamento!