28 de março de 2015

REPRINCÍPIOS

Já pouco falamos. Para quê?
Parece que quanto mais falamos, um com o outro,
mais nos magoamos, um ao outro.
Sinceramente nunca imaginei que isto nos acontecesse, 
pricipalmente porque chegámos juntos, até aqui,
e andámos tanto, tanto e sempre fomos andando.
Mas, nas nossas cabeças é a ameaça que paira
a opinião inócua que se transforma, de imediato, na guerra de palavras,  
Parece que tudo começa a correr mal,
que é preferível não falar, não olhar, não tocar, não estar
e sem darmos conta, instala-se esse silêncio absurdo,
essa irritação surda, esse desconforto mudo, 
como alguém que anda em palmilhas de meias, pela casa, 
apenas para que não se dê pela sua presença num deslizar magoado e frio.
O que faço aqui? O que fazes aqui? O que fazemos aqui?
Juntos? Ah! Ainda estamos juntos?!
Pelo menos, ainda comemos à mesma mesa
dormimos na mesma cama,
sentamo-nos ao lado um do outro, no sofá e no automóvel.
O princípio das coisas é diferente..
Chamem-lhe 'luas de mel', 'encantamentos da novidade',
'estados de graça' , 'deslumbramentos da paixão', sei lá mais o quê.
Mas, o princípio das coisas não é coisa simples de ser
É como comer um pastel de nata, em jejum.
A não ser que se coma de uma só vez...
só a primeira dentada é que é em jejum.
O princípio. Talvez nem haja um princípio de nada
e afinal tudo a que chamamos princípio seja, apenas,
uma espécie de cortina que abrimos num mesmo palco, 
para uma representação diferente, menos conhecida,
um refazer de história feita.
mas sempre com o espectáculo em andamento.
Se calhar, poderíamos tentar um reprincípio...
Eu gosto de reprincípios.

20 de março de 2015

TENHO SAUDADES TUAS, PAI

Tenho saudades tuas, pai.
Até dos tempos que só é possível recordar, anos depois,
porque alguém nos conta o que aconteceu,
Aparecias ao fundo do corredor, chegado do trabalho ao fim da tarde,
eu punha-me a gatinhar numa marcha rápida e atrapalhada,
acompanhada de sons guturais para sinalizar a minha alegria.
esperando que tu, enorme à minha frente, me tirasses do chão
depois de dares o beijo na mãe. "Então, rapaz, como foi o teu dia?"
Apertavas-me a cintura e agitavas-me entre as mãos.
Eu acho que te respondia com uma risada, meio nervosa,
não sei se satisfeito com a vida, se das cócegas.
Levavas-me ao colo, até ao quarto, mudavas de roupa,
comigo a observar-te, sentado na cama grande,
onde eu acordava, durante a noite, entre ti e a mãe,
nalguma noite que assim decidiam, sei lá eu porquê;
porque eu gostaria de dormir todas as noites
assim na cama grande, entre os dois.
Já de pijama, mais confortável, voltavas a pegar em mim
numa excursão até à sala, enquanto a mãe acabava de preparar o jantar,
e ficávamos na varanda, a vermos os carros na avenida.
sempre para cima e para baixo e o polícia sinaleiro, no cruzamento das escolas,
numa espécie de dança, em cima do estrado. de vez em quando, o som estridente do apito,
as luvas muito brancas e o capacete também branco, um maestro do transito.
Eu apontava para tudo em movimento, os carros maioritariamente pretos,
embora alguns de cores que não sabia e que tu quase me segredavas.
Este azul escuro; aquele ali grená; o táxi da capota verde claro.
De vez em quando agitava-me ao teu colo numa admiração
"Ohhhhhhhhhhhhhhhhh!", prolongava eu, de propósito, para que me prestasses atenção,
e lá vinha outra vez o carro grande e amarelo
com tantas pessoas, algumas até penduradas de fora
e com aquela vassoura no tejadilho que ao tocar nuns fios,
fazia rebentar, de vez em quando, umas estrelas azuladas como as do céu.
"O eléctrico...." acho que era isso que me dizias.
A senhora da leitaria, em frente, acenava da porta "diz adeus à dona Palmira!"
e eu dizia com a mão pequenina muito aberta e tu abanavas o meu braço.
Depois ouvíamos a voz da mãe: "Jantar na mesa!"
Às vezes adormecia à mesa enquanto tu e a mãe conversavam,
sobre coisas que eu não entendia.
A surpresa de acordar, mais tarde, na vossa cama?
Entre os dois? Como eu gostaria?
Não sabia! Se calhar tu e a mãe, também não sabiam...ainda não.

18 de março de 2015

TEMPO NÃO É DINHEIRO


Alguém inventou a frase: 'tempo é dinheiro'
para que se trabalhe mais depressa
se ande mais depressa
se descanse mais depressa
se coma mais depressa
para que tudo se faça mais depressa
mesmo que muita coisa, não tenha pressa de ser feita.
Porque não aproveitar o tempo é uma inutilidade
E perder dinheiro, uma calamidade!

Mas, tempo vale muito mais que dinheiro
É o que se tem, de mais precioso, para se gastar.
Aproveitar o tempo não é fazer tudo mais depressa
mas fazer no tempo em que deve ser feito
e cada coisa tem o seu tempo para ser feita,
sem pressa, nem vagar,

Quando se morre, fica-se sempre a mesma idade.
como se o nosso tempo tivesse parado no tempo.
E é então que percebemos
que por mais depressa que tudo tivessemos feito
continua sempre muito por fazer
e não há dinheiro que compre o tempo que falta

O TEMPO NÃO CURA TUDO


O tempo não cura tudo.
Aliás, o tempo nunca cura nada!
O tempo, apenas, tira o incurável do centro das atenções.

16 de março de 2015

TUDO TEM UM MEIO

Olhei o calendário. Segunda feira dezasseis.
O mês já passou de meio, tão depressa.
Os dias continuam a ter vinte e quatro horas
para o tempo não há demoras,
e a vida vai numa pressa.
O meio para ser meio tem de ser mesmo ao meio,
Tudo tem um meio. Até a vida!
Embora desse, apenas se saiba onde ficou,
quando se morre.

14 de março de 2015

SÁBADO PRIMAVERA

Nos tempos em que a Primavera chegava sempre a horas,
o Sol brilhava no intensamente azul
as árvores voltavam a vestir-se numa pressa esverdeada 
a passarada, numa agitação de pequenos gritos,
invadia campos de corolas confundindo cores e formas
havia uma sinfonia de sons alegres e tons mornos
que abria sorrisos felizes no rosto de toda a gente.
O barco era enorme e levava tanta gente,

'Almadense', disse o meu pai e pegou-me ao colo
junto à amurada para eu ver tudo melhor
enquanto a minha mãe lhe dava o braço.
E eu senti a mão dela, discreta e firme, a ter-me pelos calções
não fosse eu borda fora, num qualquer impulso de entusiasmo.
Havia tantas coisas para ver, ao mesmo tempo!
O Cristo Rei lá bem no alto do monte, de braços abertos,
as gaivotas nos seus voos circulares, barulhentos, em volta das fragatas,
o bando de golfinhos no seu nadar de onda, suavemente,
as pessoas que acenavam às do barco que passava em frente
a cidade que se afastava, à medida que a outra margem ia chegando.
'Cacilhas' apontou o meu pai, um amontoado de casas baixas

que se erguia à frente; e eu apontei também sem dizer nada.
O barco apitou estridente, uma, duas, três vezes, 

à chegada a azáfama dos marinheiros em manobras
agora a atarem o barco ao cais.
Já em terra firme, perguntou-me o meu pai: 'Então gostaste?"
E, eu disse que sim, com a cabeça, ainda a olhar para trás
para o barco outra vez enorme com tanta gente
para as gaivotas lá 
ao longe e para os golfinhos desaparecidos
certamente, agora acompanhando outro barco.
Chegava a hora do almoço.

Fomos ao que tinha uma grande varanda, toda aberta, para o cais!
Mas a travessia do Tejo é que tinha valido. Uma aventura. 

Um sábado diferente.

20 de fevereiro de 2015

AUTO RETRATO

Eu sou o lugar onde nasci, 
a infância que vivi,
a família em que cresci, amigos que mereci, 
as pessoas que amei e as que perdi

Eu sou todos os lugares por onde andei
os livros que li, 
as cartas que recebi, 
as músicas que ouvi e aquelas que cantei

Eu sou as decepções que encontrei,
os sonhos que sonhei, 
os erros que cometi, 
as promessas que cumpri e também as que falhei.

Eu sou as palavras que falei
os segredos que calei,
as lições que aprendi,
as vitórias que alcancei e as derrotas que sofri.

Eu sou as emoções que encobri
os sorrisos que mostrei
os beijos que dei
os abraços que apertei e os afagos que deixei.

Eu sou todos e cada um dos momentos que por mim passaram 
todos e cada um dos que comigo estiveram
todos e cada um dos pedaços que em mim deixaram.

Eu sou, no presente, tudo aquilo que já fui.

19 de fevereiro de 2015

ESTA NOITE LEVEI-TE COMIGO

Esta noite, naquele preciso instante antes de adormecer
levei-te comigo para o sonho que ia ter.

E sonhei, sonhei e sonhei.

Esta manhã, naquele preciso instante antes de acordar
despedi-me de ti, ainda a sonhar.

E amei, amei e amei.

27 de janeiro de 2015

HOUVE TEMPO

Logo que a sala escurecia
na ultima fila do segundo balcão
o foco saltava da janela da cabine de projecção
iluminava o teu rosto de sorriso ansioso
e os teus olhos que ficavam tão brilhantes.
A minha mão direita partia, então,
por debaixo do casaco de lã dobrado no colo
numa busca nervosa pelas tuas coxas quentes
nas meias de vidro muito brancas
entre a mini saia e os canos das botas altas
enquanto a tua mão se fechava no meu braço
menos como garra; mais como abraço.
A tua cabeça aconchegava-se no meu ombro,
ouvia o teu respirar lento, profundo
e sentia a tremura dos teus lábios junto aos meus
como se quisessem beijar o mundo.
O vómito de luz esbranquiçada quase por cima de nós
ia esfrangalhar-se em multiplas imagens
na tela imensa, lá em baixo a desabar na plateia. 
O filme passava. Que filme?
Houve tempo, 
quando o vento estava agreste e a chuva fria 
que íamos namorar para o cinema.
E a tarde ficava logo mais amena.

 .


26 de janeiro de 2015

EU NÃO SEI NADA

Sei lá eu porque o tempo vai prá frente,
mais depressa, tão urgente,
quando a vida anda pra trás?

Sei lá eu porque às vezes perco a razão
quando fala o coração
e sou mais verdadeiro.

Sei lá eu se o que me dás é amor
se é para disfarçar a dor
que te causa o meu olhar.